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Antigos centros de tortura na Síria recebem filmagens de séries
Um helicóptero pousa lentamente no aeródromo militar de Mezzeh, perto de Damasco, um local utilizado anteriormente para torturar e prender sírios e que agora recebe as filmagens de uma série que relata os últimos meses de Bashar al-Assad no poder.
"É difícil imaginar que estejamos filmando aqui", afirma Mohammad Abdel Aziz, diretor de "The King's Family".
"O aeroporto de Mezzeh era um símbolo da força militar. Hoje estamos gravando uma novela que relata a queda dessa força", explica enquanto dá instruções por walkie-talkie à sua equipe.
Há pouco mais de um ano, Bashar al-Assad fugiu para a Rússia quando Damasco caiu nas mãos de uma coalizão de rebeldes islamistas. Desde então, dezenas de atores e cineastas no exílio por sua oposição ao ditador voltaram ao país e deram impulso à indústria audiovisual.
Muitas das séries que estão sendo filmadas optaram por gravar em locais militares ou nos quartéis-generais dos serviços de segurança, que simbolizavam o regime de terror.
O aeródromo de Mezzeh, por exemplo, abrigava um centro de detenção dos serviços de inteligência da Força Aérea, conhecidos por sua crueldade.
- "Impensável" -
Outras cenas foram gravadas na "rama Palestina", uma das seções mais temidas dos serviços de inteligência. Agora, câmeras e técnicos lotam os escritórios onde os detidos eram submetidos a graves abusos nos interrogatórios. Muitos não saíram de lá com vida.
Em frente ao edifício foi recriado um campo de batalha: veículos carbonizados, explosões, fumaça com efeitos especiais... A equipe simula "a libertação de detidos no momento do colapso dos serviços de segurança", explica o diretor.
No dia da queda de Damasco, em 8 de dezembro de 2024, centenas de pessoas invadiram as instalações dos serviços de segurança e abriram as portas das celas. A luxuosa residência de Al-Assad, no abastado bairro de Malki, também foi invadida e saqueada.
Uma cena da série, que mostra uma briga com 150 pessoas e tiros incluídos, foi filmada nesta residência. "Impensável" tê-lo feito antes, quando os arredores do local eram estritamente proibidos aos sírios, afirma o cineasta.
Sob o poder de Al-Assad, a produção cinematográfica era severamente censurada. O roteirista Maan Sabqani conta que as autoridades atuais mantiveram um comitê de censura no Ministério da Informação, mas que este apenas fez "comentários simples" ao roteiro antes de conceder sua autorização. Mas paira a dúvida se esta liberdade relativa perdurará.
No mundo árabe, as séries costumam ser transmitidas durante o mês do Ramadã, o jejum muçulmano, que em 2026 começa em fevereiro.
Outras produções inspiradas na temática também estão previstas para serem exibidas durante este período, como uma que relata a amarga experiência da população com os serviços de inteligência, que instauraram um regime baseado na delação e no medo, ou outra que narra o motim de 2008 na prisão de Saidnaya, onde foram cometidas atrocidades horríveis.
Dezenas de presos foram assassinados naquela época nesta prisão próxima a Damasco, descrita pela Anistia Internacional como um "matadouro humano".
O roteiro estava pronto há mais de dois anos, mas o "medo" dos atores sob a ditadura e a impossibilidade de filmar na Síria impediram a realização do projeto, conta seu diretor, Mohammad Loutfi.
Hoje, explica, as novas autoridades "forneceram apoio logístico para a filmagem na própria prisão, algo que teria sido impensável" antes.
T.Germann--VB