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Colômbia concedeu 'incentivo perverso' a guerrilheiros para negociar, diz defensora de Direitos Humanos
O governo da Colômbia concedeu um "incentivo perverso" aos guerrilheiros das Farc que se afastaram do acordo de paz ao lhes dar o mesmo reconhecimento político daqueles que depuseram as armas, afirmou nesta segunda-feira (6) a defensora do povo, Iris Marín, em entrevista à AFP.
O presidente de esquerda Gustavo Petro tenta negociar a paz com todos os grupos armados, uma de suas promessas de campanha. Porém, a dez meses de deixar o poder, não alcançou acordos significativos, e 2025 se projeta como um dos anos mais violentos da última década.
"Começou a haver um tratamento politicamente equivalente: ter assinado o acordo de paz e cumprido suas cláusulas, ou ter desertado, ou nunca assinado. Acho que isso foi um incentivo perverso", declarou Marín de seu gabinete em Bogotá.
A maior parte da antiga guerrilha, a mais poderosa do continente, depôs as armas, mas alguns rejeitaram o acordo de 2016 e se rearmaram em pelo menos quatro grupos dissidentes das Farc, hoje em conflito entre si.
A violência aumentou devido a esse "fracionamento dos grupos armados", que possuem "baixo nível de ideologização" e são financiados por "economias ilegais", como o tráfico de drogas e a mineração ilegal.
Segundo Marín, este é um problema herdado dos governos do Nobel da Paz Juan Manuel Santos e do direitista Iván Duque, pela falta de investimento em territórios afetados pelo conflito.
"Talvez o governo [de Petro] tenha agido com a intenção de avançar no desarmamento e nas negociações... mas os incentivos que deu acabaram sendo perversos para esses efeitos", enfatizou a primeira mulher a chefiar a entidade de direitos humanos do país.
"Em 2025, a situação se agravou", com aumento da violência, incluindo assassinatos de líderes sociais (119), casos de recrutamento forçado (88) e o pior deslocamento desde que há registros, com quase 85 mil pessoas expulsas de suas casas, afirmou Marín.
Dissidências das Farc, a guerrilha ELN, também dividida, o Clan del Golfo, maior cartel do país, e dezenas de outras facções disputam o poder no país, maior produtor mundial de cocaína.
- Drones difíceis de neutralizar -
Especialmente na fronteira com a Venezuela e próximo ao Pacífico, drones carregados com explosivos usados por grupos armados ilegais mudaram o paradigma da guerra na Colômbia.
Sem a sofisticação de outros conflitos, como o da Ucrânia e da Rússia, guerrilheiros compram esses equipamentos a baixo custo, que também atingem civis, incluindo crianças, segundo Marín.
"É relativamente barato e simples para os grupos armados usar drones. Para as forças públicas, é uma novidade difícil de neutralizar", disse.
Em 2025, as forças militares começaram a adquirir sistemas antidrones para enfrentar adaptações artesanais usadas por grupos armados para surpreender inimigos ou intimidar comunidades.
Embora geralmente direcionados contra forças de segurança, os drones já causaram dezenas de mortes de civis, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Entre janeiro e maio, a organização documentou na Colômbia 524 vítimas de artefatos explosivos, aumento de 145% em relação ao mesmo período do ano anterior, especialmente devido ao uso de drones.
"A população civil, sem dúvida, está sofrendo muito", acrescentou Marín.
A AFP apurou que já são realizados testes no país para usar drones com capacidade de lançar granadas contra grupos ilegais.
- Mercenários de "exportação" -
Com mais de meio século de conflito, militares colombianos adquiriram uma formação valorizada internacionalmente.
Aposentados e muitas vezes com pensões baixas, são recrutados como mercenários em países distantes, como o Sudão, onde recentemente o governo acusou um grupo de colombianos de lutar ao lado de paramilitares contra o Exército.
Para Marín, esse fenômeno reflete, em parte, a falta de "judicialização efetiva de membros das forças públicas que cometeram graves violações de direitos humanos" na Colômbia.
A defensora lembrou que alguns ex-militares envolvidos no assassinato do presidente haitiano Jovenel Moise, em 2021, estavam sob investigação por mortes de milhares de civis apresentadas pelo exército como guerrilheiros abatidos em combate, em troca de benefícios.
"Enquanto a Colômbia não tiver uma política séria de reintegração de ex-combatentes ou de judicialização de criminosos, haverá mão de obra disponível", afirmou.
"E, infelizmente, de exportação para o mundo", acrescentou, referindo-se a conflitos em andamento no exterior.
F.Stadler--VB