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Por que a violência persiste no futebol latino-americano?
Um torcedor pula do setor superior da arquibancada para não ser linchado enquanto pedras e pedaços de pau são usados como armas. Mais uma vez a violência contaminou o futebol e colocou em dúvida os esforços para erradicar os enfrentamentos entre torcidas na América Latina.
Independiente e Universidad de Chile disputavam o jogo de volta das oitavas de final da Copa Sul-Americana na quarta-feira (20) quando uma batalha campal começou nas arquibancadas do Estádio Libertadores de América, em Avellaneda, ao sul de Buenos Aires.
O saldo de um dos confrontos de torcida mais violentos dos últimos tempos: 19 feridos, dois em estado grave, e mais de 100 detidos, segundo as autoridades.
Do México à Argentina, passando por Brasil, Colômbia, Chile e Equador, os episódios de violência nos estádios se repetem, apesar das tentativas de pacificar o futebol.
- Por que nos estádios? -
Brasil e Argentina, entre outros, promulgaram há mais de duas décadas leis para prevenir distúrbios e punir seus responsáveis.
Mas a violência não para. No Chile, só este ano, 12 jogos foram suspensos por atos de violência, denunciou o sindicato de jogadores do país.
Em abril, dois torcedores morreram durante um confronto antes da partida entre Colo Colo e Fortaleza pela Copa Libertadores.
Na Argentina, mais de 100 pessoas morreram nos últimos 20 anos; 157 no Brasil entre 2009 e 2019, e 170 morreram na Colômbia entre 2001 e 2019, segundo estudos acadêmicos e de ONGs.
"Existe uma ideia de que os estádios são espaços onde é legítimo cometer atos de violência, não somente física, mas também de racismo e homofobia", afirma à AFP o argentino Diego Murzi, autor do livro "Fútbol, violencia y estado" (Futebol, violência e Estado, em tradução livre).
Segundo Murzi, "uma lógica tribal sempre prevaleceu no futebol", uma cultura de provocação entre torcidas que sempre esteve "presente".
Para muitos fanáticos, "o futebol é um canalizador de frustrações", afirma o sociólogo colombiano Germán Gómez, autor do livro "Fútbol y barras bravas. Análisis de un fenómeno urbano" (Futebol e torcidas organizadas. Análise de um um fenômeno urbano, em tradução livre).
"Existe uma poetização do que significa a vitória da equipe na vida desses torcedores que deriva nessa perda de controle emocional quando se vence uma partida, e inclusive quando se perde", acrescenta.
- As medidas foram eficientes? -
As medidas de segurança se multiplicaram nos últimos anos, com a entrada dos torcedores por identificação biométrica e a vigilância por câmeras nos estádios.
"Na Argentina, você é mais revistado em um estádio do que no aeroporto", exemplifica Murzi.
Mas a tecnologia nem sempre permite a identificação efetiva de torcedores violentos.
"Alguém poderia pensar que, com esses avanços tecnológicos, os responsáveis por esses vandalismos responderiam por seus atos, mas às vezes a justiça não funciona de maneira eficiente", afirma Gómez.
O sociólogo colombiano também aponta falhas da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol).
A Conmebol "não gera punições exemplares aos clubes de futebol porque parece que o que importa é o negócio, e fechar um clube de futebol pode significar perda de dinheiro", critica.
Várias vozes, entre elas a do presidente do Chile, Gabriel Boric, culpam a entidade pelos incidentes no jogo de quarta-feira em Avellaneda, cuja organização era de responsabilidade do Independiente, segundo a Conmebol.
- O que falta fazer? -
Na Argentina e na Colômbia, a entrada de torcedores visitantes nos estádios é restrita há anos nos torneios locais.
No último ano, clubes de vários países da região tiveram que jogar com portões fechados como punição por episódios de violência, que também afastaram as famílias dos estádios.
Os clubes precisam profissionalizar seus dispositivos de segurança, já que "dependem inteiramente do que o Estado e a polícia podem fazer", afirma Murzi.
Em abril, após a morte dos dois torcedores no Chile, o governo decidiu encerrar o programa 'Estádio Seguro', uma iniciativa criada em 2011 para combater a violência no futebol, mas que fracassou.
A norma proibia, entre outras coisas, a entrada de tambores e bandeiras nos estádios e deixou a vigilância dos recintos esportivos a cargo de serviços particulares de segurança.
O programa será substituído "por um mecanismo de regulação e autorização para eventos de massa", que ainda não foi implementado.
"A mitigação da violência no futebol na América do Sul deve ser alcançada por meio de ações que promovam a educação e a cultura do futebol", afirma Gómez.
D.Bachmann--VB