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Megaron, o herdeiro de Raoni na luta pela Amazônia
Em uma tarde quente na Amazônia, o cacique Megaron mergulha no rio, um breve respiro na luta para defender o território de seu povo.
Aos 75 anos, este homem de longos cabelos brancos e linhas geométricas pintadas no corpo começa a assumir o papel para o qual se preparou por muito tempo: suceder seu tio Raoni, o líder indígena mais emblemático do Brasil.
Raoni, que dedicou sua vida a alertar o mundo sobre a destruição da Amazônia, tem 93 anos e foi hospitalizado várias vezes recentemente.
Na semana passada, Megaron Txucarramae jurou continuar os esforços de seu tio durante um encontro de lideranças kayapó na aldeia Pykany, no estado do Pará, que pretendiam ver Raoni antes de ele adoecer.
"Falei para eles que eu vou continuar apoiando a nossa luta, a luta do nosso tio, para preservar não só terra indígena, floresta, mas preservação da nossa saúde, preservação da nossa cultura, nossa língua, tudo isso nós vamos continuar lutando para preservar", disse Megaron à AFP na margem do rio.
Os kayapó são um dos centenas de povos indígenas do Brasil, mas sua batalha tem sido uma das mais visíveis internacionalmente, graças ao trabalho de suas lideranças.
Seus territórios, onde fica Pykany, formam uma das maiores áreas de floresta protegida do mundo, maior que Portugal.
Especialistas consideram que os territórios indígenas são barreiras importantes contra a mudança climática ao preservar a floresta.
- "De confiança" -
Como Raoni, Megaron é um dos últimos integrantes de uma geração de indígenas que nasceu antes do contato contínuo com o mundo exterior.
Ele nasceu em 1950 na aldeia Piaraçu, no estado de Mato Grosso, no centro-oeste, e viveu a violência "muito feio, muito ruim" das incursões em terras indígenas de invasores, fazendeiros e garimpeiros.
"Quando eu era criança, vi com meus próprios olhos um peão que matou dois tios meus na minha frente", relatou.
Nos anos 1980, Megaron esteve ao lado de Raoni liderando os grandes protestos contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Ela foi finalmente inaugurada há uma década e hoje é uma das maiores do mundo.
Em 2010, o cacique chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), então em seu segundo mandato, de "inimigo número um" dos indígenas.
Por suas ações contra a usina, ele foi afastado da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Roiti Metuktire, sobrinho-neto de Raoni, afirmou que o líder nonagenário vê Megaron como "um conselheiro de confiança".
Ele foi seu tradutor em viagens internacionais e, desde os anos 1990, se consolidou como a opção natural para "levar adiante a luta de Raoni", afirmou Metuktire, de 35 anos.
- Viagem à Europa -
Enquanto um grupo de mulheres corta piranhas recém-pescadas no rio, Megaron lamenta as incursões constantes para extrair ilegalmente ouro em terras indígenas, o que contamina as águas com mercúrio.
A alta dos preços do ouro devido à instabilidade geopolítica mundial voltou a intensificar a ação dos garimpeiros ilegais.
"O governo não consegue resolver, não consegue tirar", lamentou Megaron.
O cacique se prepara para viajar à Europa em junho junto a outras lideranças indígenas. Seu objetivo é bater à porta de joalherias de luxo como Cartier e Bulgari para que pressionem seus fornecedores a garantir que o ouro não vem de suas terras.
- Direita "anti-indígena" -
Megaron também expressa preocupação com as eleições presidenciais no Brasil em outubro.
Lula busca um quarto mandato contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, em cujo governo dispararam o desmatamento e o garimpo ilegal de ouro na Amazônia.
Embora as comunidades indígenas tenham expressado frustração com o governo Lula, o presidente reconheceu cerca de vinte novas terras para comunidades originárias desde 2023 e reduziu consideravelmente o desmatamento ilegal com fiscalização e sanções.
As eleições "preocupam porque as direitas são anti-indígenas", disse Megaron.
J.Marty--VB