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Conflito armado alimenta desinformação nas eleições presidenciais da Colômbia
Em meio à pior onda de violência em uma década, a desinformação relacionada a grupos armados encontra terreno fértil na campanha presidencial da Colômbia, que terá que escolher entre continuar as negociações de paz ou adotar uma postura linha-dura para conter a criminalidade.
Conteúdos falsos que associam os candidatos a narcotraficantes, paramilitares e guerrilheiros viralizam nas redes sociais às vésperas das eleições de 31 de maio, que escolherão o sucessor do presidente de esquerda, Gustavo Petro.
Enquanto o candidato Iván Cepeda propõe a continuidade da política de "paz total", que visa negociar o desarmamento de grupos criminosos, os opositores de direita Abelardo de la Espriella e Paloma Valencia prometem militarização e "megaprisões".
Usuários das redes sociais distorcem as posições dos candidatos com conteúdos que tentam associá-los a atividades ilegais no país que mais produz cocaína no mundo.
Os colombianos estão "mais sensíveis" ao conflito e "isso é útil para quem espalha desinformação", explica Camilo Rincón, especialista em psicologia política da Universidade de La Sabana.
A isso soma-se um fator adicional. Ao contrário de outros países da América Latina com presença de organizações ilegais, na Colômbia os grupos armados historicamente intervêm na política e agora utilizam as redes sociais para isso: possuem sites, grupos no WhatsApp e contas no TikTok.
- Mentiras com orçamento -
A oposição acusa as guerrilhas de pressionarem os eleitores a favor de Cepeda, acusações que ele nega.
Filho de um senador comunista assassinado, Cepeda aparece frequentemente em notícias falsas relacionadas aos rebeldes: em um vídeo manipulado por inteligência artificial que circula online, ele supostamente diz que incorporará guerrilheiros às forças armadas; outro vídeo editado o mostra "recebendo instruções" de Iván Mordisco, o guerrilheiro mais procurado do país.
A poucos dias das eleições, veículos de comunicação e campanhas rivais divulgaram informações sobre uma gravação de áudio na qual um suposto líder rebelde ameaça aqueles que não votarem em Cepeda no sul do país.
Após uma investigação, o Ministério da Defesa revelou a verdadeira identidade do autor: um extorsionário preso.
É difícil saber "quem está por trás" desse tipo de desinformação porque as redes sociais "facilitam o anonimato", afirma Frey Muñoz, vice-diretor da organização civil Missão de Observação Eleitoral (MOE).
Mas sabe-se que, além dos usuários "espontâneos", existem "contas coordenadas com interesses claros, que investem dinheiro em uma plataforma" para aumentar seu alcance, acrescenta.
Por exemplo, um vídeo de Valencia no qual ela supostamente "elogia" os grupos paramilitares da década de 1990 foi promovido no Facebook e alcançou mais de 30.000 visualizações.
- Das redes às ruas -
A desinformação prospera em meio ao medo. Os colombianos irão às urnas em um país assolado pela pior onda de violência desde a assinatura do acordo de paz com as guerrilhas das Farc, em 2016.
Ataques com bombas, sequestros e extorsões estão em ascensão, alimentando ainda mais a desinformação que afeta todos os candidatos.
Por exemplo, De la Espriella, advogado de diversos paramilitares e narcotraficantes, supostamente aparece ao lado de um mafioso em uma foto que circula nas redes sociais, mas o homem na imagem não é o candidato.
E circula também um vídeo distorcido de Valencia, aliada próxima do influente ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), no qual ela supostamente afirma que governará com paramilitares.
Muitos eleitores acreditam nessas informações falsas, afirmam especialistas.
"Vejo as últimas pesquisas e não consigo acreditar que Cepeda tenha tanto apoio", diz Cecilia Castaño, uma contadora aposentada de 66 anos de Bogotá.
"Honestamente, tenho medo de que as pessoas elejam alguém que queira dar continuidade ao legado de terror de Petro; o país será inundado por guerrilhas", acrescentou.
A Missão de Observação Eleitoral incluiu a desinformação entre os principais riscos eleitorais porque ela pode aprofundar a "radicalização política" e "levar os eleitores a votar com base em suas emoções em vez da razão", segundo Muñoz.
C.Bruderer--VB