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Dolarização formal, um sonho tentador na Venezuela tutelada por EUA
A dolarização formal é uma fantasia recorrente na Venezuela que ganha força sem Nicolás Maduro. Adotar a moeda americana é tentador neste país de inflação muito elevada, mas economistas consideram que a medida seria drástica, mesmo sob a tutela de seu emissor.
Na Venezuela existe uma dolarização parcial na prática que Maduro, capturado em janeiro por forças americanas, descreveu como uma "válvula de escape". Dois meses antes de sua queda, Delcy Rodríguez, então sua vice e agora presidente interina, defendeu a "soberania monetária" e afirmou que o "bolívar é fundamental".
Oficializar o uso do dólar americano é visto como uma panaceia na Venezuela após anos de recessão e uma inflação crônica que especialistas atribuem a más políticas monetárias. O chavismo atribui o fenômeno às sanções de Washington.
"Deveriam dolarizar o país", resigna-se Javier Roa, um fiscal de ônibus de 67 anos que diariamente arrecada enormes maços de notas de pouco valor. "O bolívar aqui está morrendo", lamenta.
Rodríguez governa temporariamente sob forte pressão de Donald Trump, que diz estar encarregado de comercializar o petróleo venezuelano.
A presidente interina assinou acordos energéticos com gigantes como a BP e a Chevron, além de impulsionar reformas petrolíferas e minerais favoráveis ao capital estrangeiro.
Aumentou a chamada "renda mínima integral" dos trabalhadores para 240 dólares mensais (1.179 reais, na cotação atual), já em si defasada em relação a uma cesta básica de alimentos para uma família de cinco pessoas que beira os 700 dólares mensais (3.441 reais).
"Dolarizar é aquela coisa grande que falta. Isso vem logo e com o Trump fica fácil", acredita Carlos, um taxista de Caracas que teme revelar o sobrenome.
O bolívar em espécie ficou relegado a pequenos pagamentos, como a passagem de ônibus. Seu valor virou pó em meio a uma rápida depreciação, três desvalorizações desde 2008 e 14 zeros a menos.
A cédula mais alta (500 bolívares) equivale a um dólar (4,91 reais) no câmbio oficial.
- Opção "atrativa" -
A desinformação amplia a ilusão. A equipe de fact-checking da AFP identificou um vídeo falso no qual Trump anunciava que o dólar seria a única moeda da Venezuela.
A dolarização formal é "atrativa" porque "derruba a inflação com rapidez", avalia o economista Asdrúbal Oliveros.
A alta crônica de preços atingiu um pico histórico de 130.000% no auge de uma onda hiperinflacionária de quatro anos que encerrou em 2021.
Ainda que em menor escala, a alta inflação persiste. O Banco Central da Venezuela (BCV) informou uma variação de 611,9% anual em abril. Economistas independentes relatam aumentos de preços em dólares.
Isso acende o "desejo" do venezuelano de "transitar para um sistema monetário que lhe permita subsistir e que não corroa o valor da moeda", aponta o economista Leonardo Vera, da privada Universidade Metropolitana.
Equador, Panamá e El Salvador, os únicos três países dolarizados da América Latina, alcançaram certa estabilidade macroeconômica. Territórios insulares como Palau, Timor-Leste e as Ilhas Marshall também adotaram o dólar.
No entanto, a medida é "problemática" para a diversificação da economia e o crescimento a longo prazo, diz Vera.
- Solução "extrema" -
O dólar passou a ser usado informalmente nas transações dos venezuelanos a partir de 2019, após flexibilizações de um controle cambial que o havia proibido por 15 anos. Mas com uma dolarização formal elimina-se a política monetária e permanece apenas a fiscal.
"Você tem dois braços, amputa um", explica Hermes Pérez, economista especializado em instituições financeiras. "É uma solução extrema", afirma, que implica reformas constitucionais e legislativas.
Vera considera isso "difícil", mas "não impossível". Pode acontecer quando o BCV "tiver reservas internacionais suficientes em dólares em espécie e puder fazer essa conversão dos bolívares para dólares.
Oficializar "um sistema bicambial é mais viável a curto prazo", avalia Pérez. "É o que temos" na prática.
Os preços na Venezuela são exibidos sem pudor na moeda americana, sobre a qual incide um imposto de 3% nas transações desde 2022. Um dólar oficial e outro paralelo coexistem com uma diferença próxima de 25%, que varia diariamente e inquieta quem se refugia na nota verde como única forma de poupança. Quem os tem "prefere guardá-los", segundo Vera.
Nas ruas, eles vão desaparecendo aos poucos. Em março, foram contabilizados 3,9 bilhões de dólares (19,5 bilhões de reais) em circulação, frente a 4,3 bilhões em novembro (21,6 bilhões de reais), segundo Oliveros.
Esperanza Suárez só quer "de volta" seu bolívar "forte", como foi batizado pelo falecido ex-presidente Hugo Chávez. "Eu não concordo com a dolarização", opina essa vendedora de 72 anos em Sabana Grande, uma área comercial de Caracas. "Por que o dólar? Por quê? Estamos na Venezuela".
O.Schlaepfer--VB