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'Questão de vida ou morte', diz técnico do Iraque sobre caminho rumo à Copa
"Cada jogo foi uma questão de vida ou morte", conta à AFP Graham Arnold, técnico australiano da seleção do Iraque, último país classificado para a Copa do Mundo de 2026, ao final de uma campanha caótica pela guerra no Oriente Médio.
Pergunta: Você pode contar a epopeia do Iraque, os desafios logísticos decorrentes da guerra contra o Irã e a saga de disputar a repescagem no México?
Resposta: "O ano foi uma loucura, muito estressante para os jogadores. Desde que cheguei [em maio de 2025], cada jogo das Eliminatórias foi uma questão de vida ou morte, até jogarmos contra a Bolívia em Monterrey [onde o Iraque garantiu vaga no Mundial em 31 de março]. Os jogadores tinham uma pressão enorme sobre os ombros, vinda de 46 milhões de pessoas no Iraque, e provavelmente dos dez milhões de iraquianos que vivem fora do país. O espaço aéreo estava fechado no Iraque. Eu não podia voltar para pegar meu material de treino. Por isso, pedi à Fifa que adiasse a repescagem, para que fosse justo, porque a Bolívia não teve que passar por tudo isso".
"Os rapazes tiveram que viajar 68 horas para chegar, das quais 26 foram de ônibus de Bagdá até Amã. Eles ficaram retidos na Jordânia por 28 horas por conta das bombas que explodiam ao seu redor. Quando eles finalmente chegaram a Monterrey, uma das primeiras coisas que disse foi: 'Com tudo o que está acontecendo no Oriente Médio, vocês vão usar isso como desculpa ou como motivação?'. Os rapazes estavam esgotados, tive que dar a eles dois ou três dias de folga. Não dava para treiná-los corretamente, mas eles não precisavam, só tinha que prepará-los mentalmente".
P: Esta classificação, nestas circunstâncias, foi a maior conquista da sua carreira como treinador?
R: "Sim, 100%. O fato de o Iraque estar há 40 anos sem se classificar, de a última vez ter sido no México [1986], eu já via como um sinal. Então, principalmente, tinha que fortalecer mentalmente os jogadores. Porque aqui prevalece uma espécie de mentalidade negativa, que eu relaciono à toda a merda que aconteceu nos últimos 30 anos, as guerras, tudo isso... Ninguém gosta da gente, etc".
"Os jogadores são viciados nas redes sociais, então uma das decisões mais importantes que tomei foi tirá-las deles a partir do momento em que nos concentrávamos até a nossa viagem, para afastá-los das coisas negativas que as pessoas dizem".
P: O que significa esta Copa do Mundo para o povo iraquiano?
R: "Antes de vir ao Iraque, eu nunca tinha visto um país tão obcecado pelo futebol. Aqui é feriado quando o Barcelona joga contra o Real Madrid. E eles estão obcecados pela seleção. Antes de nos classificarmos, aonde quer que eu fosse, e eu quase não podia sair, porque as pessoas te cercam por toda parte, me perguntavam: 'Mister, por favor, nós vamos nos classificar?'. E desde a nossa classificação, só vejo sorrisos em todos os rostos. É incrível. E tenho a sensação de que isso já causou um grande impacto no país. Acho que haverá mais patrocinadores, mais apoio do governo para as infraestruturas...".
P: Até onde o Iraque pode chegar na Copa do Mundo?
R: "Se somássemos o valor de mercado de cada jogador, provavelmente seríamos a equipe menos cotada. Mas é uma Copa do Mundo. Nossos garotos são guerreiros. Estamos no grupo mais difícil, ao lado de Noruega, França e Senegal. Seremos tão bons tecnicamente quanto eles? Não. Taticamente, eu diria que estaremos bem. Fisicamente, estamos trabalhando nisso. Portanto, mais uma vez, tudo se resumirá ao aspecto mental. Se os jogadores tiverem medo, jamais vencerão. Precisamos que eles acreditem em si mesmos. E então, quem sabe o que pode acontecer? São 11 contra 11".
L.Wyss--VB