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Após operação mais letal da história, revolta toma conta das ruas da Vila Cruzeiro
Um menino segura um cartaz que diz: "crianças precisam brincar, favela pede paz". Sua camisa está manchada com tinta vermelha, uma lembrança do sangue derramado durante a operação policial mais letal da história do Brasil.
Assim como ele, centenas de pessoas protestaram nesta sexta-feira (31), vestidas de branco, pelas ruas da Vila Cruzeiro, uma das favelas do Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde ocorreu há três dias a incursão policial que deixou mais de 120 mortos.
"Os policiais vieram aqui para fazer só um massacre", declarou à AFP Ana Maria Pereira, de 18 anos, moradora da favela.
O ponto de partida da manifestação foi o campo de futebol onde Adriano, ex-jogador de Flamengo, Inter de Milão e seleção brasileira, deu seus primeiros passos.
"Fora Cláudio Castro! Chega de matanças nas favelas!", entoavam os participantes, em referência ao governador do Rio de Janeiro, que considerou a operação de terça-feira um "sucesso" contra os "narcoterroristas".
Alguns cartazes diziam: "Mais de 120 vidas perdidas não é sucesso" e "Castro tem sangue nas mãos".
Dezenas de mototáxis, o meio de transporte mais comum nas favelas do Rio, também se juntaram à marcha com o rugido de seus motores.
No dia da operação, "a polícia não deixava a gente se locomover, tacava spray de pimenta", disse um deles, Lucas Azevedo, de 32 anos.
Moradores da Zona Sul também participaram da manifestação, como Miguel Rabelo, um músico de 30 anos. "Para mim, [...] é importante, no mínimo, vir até aqui, somar, fazer número, ouvir as pessoas, [...] olhar as pessoas nos olhos", disse.
- Muita 'dor' e 'indignação' -
"Existe muita indignação, existe muita dor. Mesmo diante disso, a comunidade está aqui se reunindo [...] para que não aconteça mais", disse Monica Benicio, viúva de Marielle Franco, a ex-vereadora nascida no Complexo da Maré e assassinada em 2018 num crime que chocou o Brasil e o mundo.
"O mais aterrorizante é ver como parte da sociedade aplaude, dizendo que bandido bom é bandido morto", lamentou Monica, de 39 anos, que também é cria da Maré e vereadora na capital fluminense pelo mesmo partido de Marielle, o PSOL.
A indignação dos moradores dos Complexos da Penha e do Alemão, onde milhares de policiais entraram na terça-feira, está presente por todas as partes nas comunidades.
No entanto, pesquisas publicadas nos últimos dias mostram que a maioria dos brasileiros aprova a operação contra o Comando Vermelho, uma das principais facções criminosas do país.
"É preciso uma mobilização nacional no combate a essa organização, que não é mais uma organização criminosa, é uma organização terrorista com práticas terroristas e táticas de guerrilha [...] que oprimem o morador da comunidade", declarou Felipe Curi, chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, em coletiva de imprensa nesta sexta-feira.
Segundo Curi, até agora foram identificados no IML os corpos de 99 pessoas, descritas pelas autoridades como "criminosos". Entre elas, 42 tinham mandados de prisão em aberto e 78 contavam com uma longa lista de antecedentes.
Em nota, a ONG Human Rights Watch denunciou nesta sexta que a polícia não tomou "medidas investigatórias cruciais" para determinar as circunstâncias das mortes durante a operação, como preservar o local dos tiroteios ou estabelecer uma cadeia de custódia rigorosa das provas.
Na quarta-feira, o dia seguinte à incursão policial, os moradores encontraram dezenas de corpos em uma área de mata e os levaram para uma praça na favela, onde eles foram enfileirados. Essa imagem correu o mundo.
Curi anunciou que a polícia vai investigar se a remoção e exibição dos corpos foi feita com a intenção de criar uma narrativa contra a atuação policial.
Enquanto a direita conservadora o acusa de ser negligente em matéria de segurança pública, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta sexta, na rede social X, que apresentou um projeto de lei ao Congresso propondo uma pena de 30 anos de prisão para os membros de facções criminosas.
T.Zimmermann--VB