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Desaparecimentos forçados por militares crescem no Equador
Armados com fuzis e com os rostos cobertos, cinco militares agrediram o jovem Dave Loor quando o detiveram a caminho de uma loja. Já faz mais de um ano desde seu desaparecimento, e as denúncias de abusos das forças de segurança no Equador não pararam de crescer.
O caso desse pedreiro de 21 anos, sem antecedentes criminais, faz parte dos 43 desaparecimentos forçados cometidos por agentes do Estado documentados pela Anistia Internacional (AI) desde 2023, quando o presidente Daniel Noboa assumiu o cargo.
O aumento das denúncias coincide com o envio de policiais e soldados às ruas, determinado pelo governo para enfrentar as máfias, segundo a Anistia.
Em 24 de agosto de 2024, Loor ligou pela última vez para a mãe para avisar que estava com um amigo em Los Ríos, uma conflituosa província costeira usada para o transporte de drogas até os portos do Pacífico.
Em um vídeo, o jovem aparece com as mãos para o alto enquanto militares revistam seus bolsos e o colocam em uma caminhonete, onde o agridem pelas costas. Segundo o relatório militar, não foram encontradas armas, nem drogas com ele. Desde então, nada se sabe sobre seu paradeiro.
Sua família não se conforma.
“Nós sobrevivemos, nos resta procurar porque não sabemos o que aconteceu”, diz à AFP Diana Roca, tia do jovem.
“Se o presidente Daniel Noboa não tivesse mandado os militares às ruas durante os estados de exceção, não seríamos 43 famílias em desespero”, acrescenta Roca, aos prantos.
- Descontentamento nas tropas -
A ofensiva militar não conseguiu conter a violência das numerosas gangues que traficam drogas, instalam carros-bomba e promovem massacres em um dos países mais perigosos da América Latina.
O Ministério Público registra um aumento nas denúncias de execuções extrajudiciais, que passaram de seis em 2023 para 19 no ano passado. As queixas de abusos cometidos por agentes do Estado subiram 125% no mesmo período, quando Noboa declarou conflito armado interno no país.
Para a especialista em segurança Michelle Maffei, há um agravante: o Exército não é treinado para proteger civis, mas para combater inimigos em contextos de guerra.
Os soldados assumiram funções não militares, como administrar prisões e realizar patrulhas urbanas — o que representa riscos de abusos que afetam, sobretudo, populações marginalizadas.
Além disso, há um “descontentamento” entre as tropas, que não podem expressá-lo “abertamente”, segundo Maffei.
Militares ouvidos pela AFP sob a condição do anonimato afirmaram que há forte pressão do governo por resultados, sob ameaça de punições ou em troca de benefícios.
Na Colômbia, uma política semelhante resultou no maior escândalo das Forças Armadas, conhecido como o caso dos “falsos positivos”: ao menos 6.400 civis foram assassinados e apresentados como guerrilheiros mortos em combate.
- "Detenções arbitrárias" -
O general aposentado Luis Altamirano aponta as mudanças repentinas na cúpula militar como causa da instabilidade nos quartéis.
Em setembro, Noboa afastou três comandantes apenas 26 dias depois de nomeá-los, aparentemente em razão de seu desempenho.
“Nem uma loja de bairro é administrada trocando o encarregado toda semana; imagine as Forças Armadas”, acrescenta Altamirano.
Renato Rivera, pesquisador da Iniciativa Global contra o Crime Organizado, duvida da eficácia das ações sob pressão. “Por isso vemos centenas de supostos chefes de facções presos”, afirma.
Mas não foram apenas as prisões que aumentaram.
A Anistia Internacional relata o caso amplamente divulgado de quatro adolescentes com idades entre 11 e 15 anos, desaparecidos em Guayaquil. Seus corpos foram encontrados carbonizados após terem sido detidos em uma operação militar, em dezembro. Dezessete militares foram acusados de desaparecimento forçado.
Luis Arroyo, pai de dois dos adolescentes, culpa o governo. “O uniforme e esse discurso de linha-dura permitem que os militares façam o que quiserem, e estamos pior do que antes”, afirma.
Sua filha mais nova chora todos os dias e dorme com a roupa do irmão, Ismael, que sonhava em ser jogador de futebol, conta o pai.
Para o diretor da organização local de defesa dos direitos humanos Billy Navarrete, o número de denúncias de desaparecimentos é inédito.
“São detenções arbitrárias de pessoas que não eram perigosas”, diz.
I.Stoeckli--VB