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Pagar para preservar as florestas: Brasil promove ambicioso fundo de investimentos na COP30
Ganhar dinheiro protegendo as florestas. Esta é a ideia do fundo de investimentos que o Brasil vai lançar na quinta-feira (6), às vésperas da COP30, com a grande dúvida de quais países e investidores vão contribuir.
O Brasil tem a ambição de captar 125 bilhões de dólares (R$ 673 bilhões, na cotação atual) entre governos e investidores privados para alimentar este fundo, chamado "Tropical Forests Forever Facility" (TFFF).
Seu funcionamento é assim: os fundos serão investidos no mercado e os lucros permitirão pagar a cada ano uma quantia em dinheiro a países em desenvolvimento por cada hectare de floresta protegido.
A ideia do fundo, que inicialmente despertou grande atenção, agora suscita um interesse mais moderado.
- Por que criar este fundo?
A maior parte das florestas primárias fica em países tropicais mais pobres, onde é mais rentável desmatar que preservá-las.
As promessas feitas pelos países ricos há décadas para financiar o combate ao desmatamento não se concretizaram, observa João Paulo de Resende, conselheiro para o clima do Ministério da Fazenda.
Apesar de alguns avanços em países como o Brasil, o desmatamento se mantém em níveis recorde em escala mundial. Em 2024, desapareceram a cada minuto o equivalente a 18 campos de futebol de florestas tropicais primárias.
E este é um grande problema para o planeta, pois as florestas tropicais absorvem carbono e contribuem, assim, para a regulação do clima. Ao contrário, sua destruição libera carbono na atmosfera, o que influencia no aquecimento global.
Além disso, as florestas primárias são importantes reservas de biodiversidade. Abrigam 75% da fauna e da flora mundiais, dois terços das quais nas florestas tropicais.
- Como o fundo funcionaria?
Inicialmente, a ideia é captar 25 bilhões de dólares (R$ 134,6 bilhões) entre governos "patrocinadores", desejosos de melhorar sua imagem e dispostos a assumir as eventuais perdas iniciais.
Em uma segunda fase, o Brasil quer atrair outros US$ 100 bilhões (R$ 538,4 bilhões) de investidores privados, como fundos de pensão e fundos soberanos.
O capital será investido em uma "carteira diversificada de obrigações de longo prazo e com uma boa classificação creditícia", principalmente em mercados emergentes. Uma vez pagos os juros aos investidores, os lucros serão repassados aos países tropicais que tiverem taxas de desmatamento baixas, mediante verificação por meio de observação via satélite.
Esta abordagem difere dos mercados de carbono ou do modelo tradicional de subvenções e ajudas, no qual as doações são concedidas a projetos específicos de conservação florestal, explica Pakhi Das, que estudou este projeto para a associação Plant for the Planet.
- Quem se beneficiará do fundo?
O Brasil prevê que o fundo gere cerca de 4 bilhões de dólares (R$ 21,5 bilhões) por ano e identificou 74 países passíveis de compartilhar os lucros, segundo uma nota de síntese.
Em um primeiro momento, só seria elegível um pequeno número de países: aqueles que possam demonstrar uma baixa taxa anual de desmatamento, inferior a 0,5%. Este percentual deverá ser mantido ano após ano, se o país quiser continuar recebendo os lucros do fundo.
Teoricamente, Brasil, Indonésia e República Democrática do Congo poderiam embolsar cada um centenas de milhões de dólares por ano, se conseguirem erradicar o desmatamento por completo.
Isso incentivaria outros países a redobrarem seus esforços, segundo especialistas consultados pela AFP. Em muitos casos, o montante em potencial dos pagamentos dobraria e inclusive triplicaria as quantias que os governos e os doadores internacionais aportam atualmente para a preservação das florestas.
- A grande pergunta: vai funcionar?
O fundo poderia inclusive começar sem os 25 bilhões de dólares de capital inicial, segundo o assessor João Paulo de Resende. Atualmente, só o Brasil se comprometeu a alimentá-lo.
"O que precisamos na COP é de uma mensagem política que indique que esse é o caminho que é preciso seguir", reforça o assessor.
Os diplomatas se perguntam sobre os procedimentos de controle do fundo e sua capacidade de obter uma nota creditícia elevada, que atraia os investidores.
Algumas ONGs, como a Global Forest Coalition, acreditam que este fundo é uma "solução falsa", e denunciam uma série de carências técnicas.
Para outros observadores, como Mauricio Voivodic, diretor da WWF Brasil, "melhor isso do que esperar a solução perfeita. Não há solução milagrosa".
R.Kloeti--VB