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Indignação em Cuba após acusação de Raúl Castro pelos EUA
Os cubanos manifestaram consternação e surpresa após os Estados Unidos indiciarem na quarta-feira (20) o ex-presidente Raúl Castro por acusações de assassinato, uma surpreendente escalada da pressão do presidente Donald Trump sobre a ilha comunista.
As acusações contra o ex-mandatário — que, aos 94 anos, continua influente na política cubana — intensifica a pressão exercida por Washington sobre a ilha caribenha, submetida a um embargo desde 1962 e agora devastada por uma crise econômica e energética.
As autoridades cubanas criticaram duramente o indiciamento, o mais recente episódio da postura cada vez mais intervencionista de Trump, após a guerra com o Irã, a derrubada do presidente venezuelano Nicolás Maduro e as ameaças contra a Groenlândia.
As acusações contra Raúl Castro, irmão mais novo de Fidel Castro, líder da revolução vitoriosa em 1959, derivam da derrubada de dois aviões civis pilotados por anticastristas em 1996. Quatro pessoas morreram, três delas cidadãos americanos. Na época, Raúl Castro era ministro da Defesa.
"Isto não é uma alegação, é diretamente uma acusação de mais de 30 anos atrás" e "um ataque público a uma figura pública", declarou à AFPTV Fabián Fernández, um contador de 30 anos, em Havana. "Vai além da acusação, é uma coisa política e de imagem", acrescentou.
Pedro Leal, um aposentado de 65 anos, afirmou que esse indiciamento, "além do bloqueio energético que não nos deixa trazer combustível para cá", é "criminoso".
As autoridades cubanas convocaram a população a protestar contra a "desprezível" acusação.
O jornal oficial Granma exortou os cubanos a se reunirem em frente à embaixada dos Estados Unidos em Havana na sexta-feira às 7h30 (9h30 no horário de Brasília).
Além do assassinato de quatro pessoas, Castro foi acusado de conspiração para matar cidadãos americanos e de destruição de aeronaves.
Em 24 de fevereiro de 1996, dois caças cubanos MiG perseguiram e derrubaram duas pequenas aeronaves desarmadas de "Hermanos al Rescate" no Estreito da Flórida, matando seus quatro tripulantes.
Essa organização tinha como objetivo ajudar balseros cubanos a chegar à Flórida.
O governo cubano afirmou em um comunicado que agiu então "em legítima defesa, dentro de suas águas jurisdicionais". Os aviões caíram em águas internacionais.
- "O mesmo" que a Nicolás Maduro -
O bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos, que já dura quatro meses e busca minar o governo comunista de Cuba, levou a economia da ilha — já bastante castigada — à beira do colapso.
Aos cortes de eletricidade de até 20 horas por dia somam-se a inflação galopante, que disparou os preços dos produtos básicos, e o acúmulo de montanhas de lixo nas ruas de Havana.
Donald Trump alterna ameaças com ofertas de diálogo com a ilha, mas reduziu as expectativas de adotar medidas contra Cuba após a acusação formal contra Castro.
"Não haverá uma escalada, não é necessário. Está desmoronando. Eles realmente perderam o controle de Cuba", declarou o mandatário americano na quarta-feira.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou no X que as acusações carecem de fundamento jurídico e buscam apenas "engrossar o dossiê que estão fabricando para justificar o desatino de uma agressão militar a Cuba".
Analistas não tardaram em estabelecer comparações com a Venezuela, onde o governo americano se valeu de uma acusação interna para justificar uma ação militar em janeiro que derrubou e destituiu o presidente Nicolás Maduro, um forte aliado de Cuba.
"A ideia é dizer: 'Podemos fazer com ele o mesmo que fizemos com Nicolás Maduro'", explicou à AFP Christopher Sabatini, pesquisador sobre América Latina no Chatham House.
"O Exército sem dúvida defenderia Cuba" em caso de uma intervenção militar americana, afirmou Sabatini. "Se o povo o faria ou não, é difícil dizer".
W.Huber--VB