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Diálogo ou guerra: eleições divididas na Colômbia à sombra da violência contra ex-guerrilheiros
A ex-guerrilheira Nidia Arcila assinou a paz sem imaginar que, dez anos depois, as montanhas onde combateu estariam sob o fogo de novos rebeldes e narcotraficantes. A pergunta sobre como enfrentar o conflito armado divide a Colômbia antes das eleições presidenciais.
Entre montanhas verdes, os moradores do município de Algeciras, no departamento de Huila (sudoeste), sofrem a violência de três dissidências das Farc que se afastaram do histórico acordo de paz de 2016 e hoje se enfrentam entre si pelos lucros do narcotráfico.
A AFP visitou essa localidade em plena campanha para as eleições de 31 de maio, onde defensores de direitos humanos e ex-combatentes são constantemente hostilizados.
"A paz não pode continuar nos custando a vida", escreve em um cartaz Arcila, de 41 anos, durante um evento no estádio da cidade.
Desde a assinatura do pacto, 492 ex-guerrilheiros foram assassinados, segundo o chefe da Missão de Verificação da ONU na Colômbia, Miroslav Jenča. Entre eles está o companheiro de Arcila, Ronald Rojas.
Os dois se conheceram no início dos anos 2000 nas fileiras das Farc. "Ele diz que tomou água do (rio) Putumayo e por isso se apaixonou por uma indígena", recorda sorridente a ex-combatente amazônica, recrutada desde criança.
Quatro anos depois de aderirem ao tratado, como fizeram outros 13.000 ex-guerrilheiros, o casal ouviu disparos enquanto conversava em sua casa em uma zona rural de Huila.
Três balas atingiram o peito de Rojas, que morreu pouco depois em um hospital. A Justiça não identificou os responsáveis, mas essa mãe de dois filhos suspeita que o motivo possa ter sido o fato de Rojas "estar muito comprometido com a implementação do acordo".
"Eu me sinto mais fraca, sozinha", relata à AFP de Neiva, capital do departamento. Lá, ela administra uma loja, decorada com coloridos murais, onde vende café e outros itens produzidos por ex-combatentes e vítimas do conflito.
- Dois caminhos -
A Colômbia vive a pior onda de violência da última década, e essa é uma das principais preocupações na campanha eleitoral. A pergunta sobre como enfrentar os grupos armados divide o país em duas visões irreconciliáveis.
O líder nas pesquisas, o senador de esquerda Iván Cepeda, aposta em continuar a estratégia de negociações de paz com as organizações ilegais, em linha com o presidente Gustavo Petro.
Em segundo lugar aparece o advogado de direita Abelardo de la Espriella, que propõe uma guerra frontal.
A violência contra aqueles que acreditaram na paz fragmenta ainda mais o debate.
Em Algeciras, 12 pessoas entre ex-combatentes e familiares diretos foram assassinadas. No último ataque armado, em janeiro, um antigo guerrilheiro ficou gravemente ferido e sua esposa morreu.
Funcionários, a Igreja Católica e a Missão de Verificação da ONU, que examina as garantias de segurança do tratado, chegaram à localidade de 22 mil habitantes para ouvir as vítimas.
A violência é "o principal obstáculo para consolidar o processo de reincorporação" daqueles que assinaram a paz, diz Jenča.
Johnesmith Rincón, ex-combatente de 39 anos que hoje dirige uma fundação juvenil no município, se desloca acompanhado por um segurança do Estado após receber ameaças, segundo ele, relacionadas a atividades vinculadas ao acordo.
"O caminho é a reconciliação", diz, mantendo a esperança de que algum dia "Algeciras possa viver em paz".
- "Entrar ou morrer" -
A Colômbia tem visto um "crescimento da presença de grupos armados", motivado pelo "fracasso da paz total", afirma Alejandro Chala, pesquisador do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz.
A menos de três meses de deixar o poder, Petro não consegue desativar o conflito com nenhuma das organizações com as quais tentou negociar.
A direita defende uma "ofensiva total do Estado", diz Chala, e apela para a nostalgia do governo de Álvaro Uribe (2002-2010), que encurralou as guerrilhas, mas também acumulou milhares de denúncias por crimes das forças de segurança em aliança com paramilitares.
Enquanto isso, os grupos criminosos buscam recrutar os ex-combatentes por causa de sua experiência, "pressionam-nos a entrar ou morrer", diz Chala.
"Eles dizem que eu sei lidar com os números (...) e que precisam trabalhar comigo", conta um antigo miliciano logístico das Farc que pede anonimato devido às ameaças que recebe por sua recusa em retomar as armas.
Na pequena localidade onde vive, ninguém conhece seu passado. "Meus melhores anos eu dediquei à guerrilha e não quero voltar a calçar aquelas botas".
K.Hofmann--VB