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Cresce a ansiedade entre familiares de presos políticos com lentas libertações na Venezuela
Dilsia Caro dormiu no chão em frente à prisão onde seu marido está detido desde 2023. Correu para lá assim que ouviu o anúncio sobre a soltura de presos políticos feito na quinta-feira (8) pelo novo governo da Venezuela.
Mas chegou a noite, passou a madrugada, boa parte da sexta-feira e nada.
“Dormi um pouquinho no carro”, diz à AFP, frustrada, essa mulher de 50 anos.“Vejo isso como um escárnio, sabendo que deram a ordem de libertá-los”, declarou mais cedo.
Ela pegou cinco ônibus para percorrer os 170 km de Maracay até Guatire, nos arredores de Caracas, onde fica o presídio Rodeo I.
Seu marido, Noel Flores, foi detido pela publicação de um status na plataforma WhatsApp contra o governo, relata.
Cerca de 30 familiares se aglomeraram do lado de fora do Rodeo, assim como em outros conhecidos centros penitenciários onde há presos políticos, como El Helicoide, em Caracas.
A Venezuela anunciou na quinta-feira a libertação de “um número significativo” de opositores detidos.
Não está claro quantos são. Quase 30 horas após o anúncio, ONGs contabilizam entre oito e 11 libertações, que incluem dois opositores e cinco espanhóis.
O ex-candidato presidencial Enrique Márquez foi posto em liberdade na noite de quinta-feira, junto com o dirigente Biagio Pilieri. A ativista Rocío San Miguel, que tem dupla nacionalidade, saiu acompanhada de outros quatro espanhóis e eles viajaram para Madri.
- “Ele não sabia de nada” -
É o primeiro anúncio de libertações sob a presidência interina de Delcy Rodríguez, que assumiu após os bombardeios dos Estados Unidos que, em 3 de janeiro, levaram à deposição de Nicolás Maduro.
A Casa Branca insiste que o gesto é uma amostra da influência que o presidente Donald Trump tem agora sobre a nova administração.
Mas em frente aos presídios há apenas frustração, pela demora e pela falta de informações.
“Chegaram os alvarás de soltura!”, grita alguém no Rodeo. A multidão responde cantando o hino nacional, com ênfase na estrofe “abaixo as correntes”.
Mas as horas passam e ninguém sai. “Estou esperançoso”, afirmou Jairo Bethermytt, de 60 anos, que tem o filho preso há seis anos, acusado de envolvimento em um atentado contra Maduro. “Ficarei aqui o tempo que for possível.”
Shakira Ibarreto, filha de um policial preso em 2024, disse que conseguiu entrar para conversar com o pai na prisão.
“Ele não sabia de nada. Não sabiam que pegaram o Maduro, nada. Estavam incomunicáveis desde 15 de dezembro”, afirmou Ibarreto, que, com medo, contou a ele sobre a operação militar americana que capturou o mandatário deposto.
“Havia vários presos por perto, todos começaram a gritar de emoção, aplaudiam, os guardas não faziam nada”, relatou.
Maduro foi levado a Nova York para enfrentar um julgamento por narcotráfico.
- “Tenho esperança” -
Do Helicoide entram e saem motos e veículos oficiais. Essa estrutura em espiral é a sede dos serviços de inteligência, e opositores a consideram um símbolo da “tortura” do governo.
O Comitê pela Liberdade dos Presos Políticos convocou uma vigília em frente a este presídio. “Seguimos esperando a liberdade de todos os presos políticos”, diz uma faixa da organização, que contabiliza cerca de 1.200 presos políticos.
Por sua vez, o Foro Penal registrava 806 pessoas detidas por razões políticas na Venezuela, incluindo 175 militares.
Muitos não têm certeza do paradeiro de seus entes queridos.
“Não sei nada do meu irmão há seis meses”, disse Maira Morales, irmã de um dos acusados na Operação Gedeón, uma incursão fracassada para derrubar Maduro em 2020.
Ele foi transferido do Helicoide para outra prisão e “não nos dão provas de vida”, contou Morales.
Perto dali, Marili del Carmen Rodríguez aguardava informações sobre o filho Carlos, de 29 anos, detido em setembro no interior do país. “Não sei se ele está aqui, mas tenho esperança.”
C.Koch--VB