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Oposição da Venezuela, apagada dos planos de Trump
Ela desapareceu das ruas, seus líderes estão no exílio e Donald Trump perdeu interesse: a oposição foi relegada dos planos dos Estados Unidos para a Venezuela pós-Maduro.
Maduro foi capturado por tropas americanas juntamente com sua esposa, Cilia Flores, durante um bombardeio a Caracas.
Ambos agora enfrentam um julgamento em Nova York por narcotráfico. Vê-los em roupas de presidiários, algemados, perante um juiz é um sonho para muitos opositores.
A líder opositora María Corina Machado rapidamente renovou sua promessa de voltar para a Venezuela, de onde fugiu após meses de clandestinidade em uma operação rocambolesca para receber o prêmio Nobel da Paz em Oslo, em dezembro.
Mas tomar o poder é um cenário descartado por enquanto. Delcy Rodríguez, número dois de Maduro, assumiu como presidente interina com o aval de Trump, que repetiu estar "a cargo" do país.
O apoio de Washington às denúncias de fraude eleitoral de Machado e a reivindicação da vitória de Edmundo González Urrutia ficaram de lado.
A princípio, tudo se resume a "um tema de controle", explica à AFP O analista Ricardo Ríos.
- Sem Trump -
Por anos, Washington impulsionou a saída de Maduro com uma bateria de sanções econômicas e desde 2019 com um embargo petroleiro.
Trump estava, então, em seu primeiro mandato. Ele apoiou e deu recursos ao chamado "governo interino" de Juan Guaidó, que acabou se esvaziando, sem apresentar resultados.
Em seu retorno ao poder, seus planos contra Maduro excluíram Machado, apesar da popularidade vertiginosa da líder opositora.
"Seria muito difícil para ela liderar o país", disse Trump após a operação surpreendente para capturar o líder venezuelano, em 3 de janeiro. "Não inspira respeito", avaliou.
O jornal The New York Times reportou que assessores o convenceram a não entregar o poder à oposição para evitar desestabilizar o país ainda mais e não ter que enviar tropas no terreno.
"A oposição não tem uma estrutura institucional, nem incidência sobre o governo que lhe permita administrar a transição", aponta Ríos.
Machado apoiou desde o início a pressão militar americana sobre a Venezuela. Ela agradeceu exaustivamente a Trump, com quem disse não falar desde 10 de outubro.
Naquele dia, foi anunciado o prêmio Nobel da Paz, que se tornou o pomo da discórdia.
Trump cobiçava o prêmio e minimizou o reconhecimento à opositora de 58 anos, que o dedicou a ele em 10 de outubro.
Na última terça-feira, Machado voltou a oferecê-lo ao republicano, mas o Comitê do Nobel informou que é intransferível. Silêncio total em Washington.
- Sem militares -
A oposição faz apelos constantes aos militares. Pede que respeitem a Constituição e acatem o "mandato" das presidenciais de 28 de julho de 2024, quando a oposição insiste ter vencido Maduro com 70% dos votos.
Mas a Força Armada se declara abertamente "chavista" e sempre jurou "lealdade absoluta" a Maduro. Agora, deram apoio a Delcy Rodríguez.
"O que Trump quer é hackear" o governo e "o põe para trabalhar para ele", assinala Ríos. O presidente republicano disse que está "a cargo" da Venezuela e ventilou que foi sua a decisão deixar Rodríguez à frente.
"Era o lógico no sentido de que tinham que dar [o poder] a atores do oficialismo", relativiza Ríos.
Os militares sempre tiveram poder na Venezuela, embora este tenha se multiplicado em 27 anos de chavismo. Eles também controlam as armas, as empresas de mineração, o petróleo e a distribuição de alimentos, assim como as aduanas e importantes ministérios.
Foram a sustentação de Maduro e, agora, de Rodríguez.
- Sem as ruas -
Os apoiadores da situação marcham diariamente desde o ataque. "Maduro, amigo, o povo está contigo", gritavam manifestantes em Caracas na terça-feira.
A oposição, que poucos anos atrás lotava avenidas e rodovias, se mantém em silêncio.
Ao medo que se instalou após milhares de detenções que se seguiram aos protestos pela questionada reeleição de Maduro em 2024, soma-se agora um decreto de estado de exceção que pune com a prisão qualquer comemoração da operação americana.
A oposição também tem seus principais líderes no exílio, na clandestinidade ou na prisão.
Tanto Machado quanto González Urrutia estão fora da Venezuela. Existe uma pequena representação na nova Assembleia Nacional, que se distanciou de Machado e tem popularidade baixíssima.
A liderança "não pode continuar apostando todas as suas esperanças em uma solução decidida em Washington", disse à AFP o advogado Mariano de Alba, especialista em geopolítica.
"Se o objetivo é construir um país democrático onde o interesse da maioria seja relevante e as minorias sejam respeitadas, seguem sendo cruciais a iniciativa e a organização interna", afirmou.
G.Frei--VB