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Sucessora de Maduro diz governar sem pressão, mas Trump anuncia controle sobre petróleo venezuelano
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, assegurou nesta terça-feira (6) que governa sem a influência externa, mas, pouco depois, o chefe de Estado americano Donald Trump anunciou que venderá seu petróleo e controlará os lucros.
Delcy Rodríguez foi vice-presidente de Nicolás Maduro até sua captura em uma surpreendente incursão militar dos Estados Unidos e 3 de janeiro, que deixou dezenas de mortos, entre eles 55 militares cubanos e venezuelanos pertencentes à segurança do governante deposto.
Delcy tomou posse na segunda-feira, com o crucial reconhecimento das Forças Armadas e o apoio dos demais poderes públicos.
"Estamos aqui governando junto com o povo. O governo da Venezuela governa em nosso país, mais ninguém. Não há agente externo que governe a Venezuela, é o governo da Venezuela", enfatizou a presidente interina nesta terça durante reunião com a equipe econômica transmitida pela TV estatal.
Trump insiste em que está "no comando" do país e anunciou nesta terça que o governo de Delcy Rodríguez lhe entregará até 50 milhões de barris de petróleo.
"Este petróleo será vendido a preço de mercado e o dinheiro será controlado por mim", escreveu o líder americana em sua plataforma Truth Social.
Trump sugeriu que foi uma decisão sua deixar Delcy Rodríguez à frente do governo, sem considerar por ora entregar o poder à oposição liderada pela vencedora do prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado.
Trump advertiu a nova governante de que, se "não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto".
Delcy, por sua vez, enviou uma carta de tom cordial na qual defendeu uma relação equilibrada e respeitosa entre os dois países.
- 'Prisioneiro de guerra' -
Maduro e a esposa, Cilia Flores, enfrentam agora a Justiça dos Estados Unidos, acusados de narcotráfico e outros crimes.
"É um sujeito violento e matou milhões de pessoas", disse Trump em uma conferência com parlamentares republicanos.
O Departamento de Justiça retirou a maioria das referências ao chamado Cartel dos Sóis na nova acusação contra Maduro, Cilia Flores, seu filho "Nicolasito", seu ministro do Interior e o chefe da temida quadrilha Trem de Aragua.
Parte da operação contra Maduro se baseou na designação como terrorista dessa suposta organização criminosa do tráfico de drogas, que agora foi definida como um "sistema de clientelismo", segundo reportaram jornais como El País e New York Times.
Não está claro como essa mudança pode afetar o processo contra Maduro, que denunciou ser um "prisioneiro de guerra" ao se declarar não culpado.
"Sou um homem decente, continuo sendo o presidente do meu país", afirmou ele na audiência, antes de ser interrompido pelo juiz.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, pediu um "julgamento justo" para Maduro, enquanto as Nações Unidas consideraram que a operação que levou à sua captura "minou um princípio fundamental do direito internacional".
- 'Reacomodação' -
Um general da reserva que ocupou altos cargos nas Forças Armadas considera que Delcy Rodríguez abrirá as portas do país para petroleiras e mineradoras americanas. Ele não descarta uma retomada das relações diplomáticas com Washington, rompidas em 2019.
E, em paralelo, "de maneira acessória", impulsionará "uma agenda política eleitoral", que inclua a libertação de políticos presos, acrescentou a fonte.
O governo interino tem duração máxima de 180 dias, após os quais o Executivo terá de convocar eleições.
"O objetivo principal é ganhar tempo para consolidar a reacomodação e aproveitar que as demandas e condições de Washington estão centradas na questão petrolífera, o que também levará certo tempo para se concretizar", disse o analista político Mariano de Alba.
Delcy Rodríguez nomeou o ex-presidente do Banco Central da Venezuela, Calixto Ortega Sánchez, como novo 'czar' da economia, um cargo que ela mesma ocupava. Fora isso, manteve intacto o restante do gabinete de Maduro, com figuras-chave como Diosdado Cabello no Ministério do Interior e Vladimir Padrino na pasta de Defesa.
"Delcy deveria dormir com um olho aberto agora mesmo", disse à AFP o ex-diplomata americano Brian Naranjo, que foi o número dois da embaixada de seu país na Venezuela entre 2014 e 2018, antes de ser expulso por Maduro.
No entanto, Mariano de Alba estimou que, "apesar das diferenças internas, o chavismo tem bem internalizado que apenas em uma coesão aparente tem chance de se perpetuar no poder".
- 'Mulher revolucionária' -
O chavismo realizou nesta terça-feira uma "marcha de mulheres" para pedir a libertação de Maduro e Flores. O movimento convocou manifestações diárias desde sábado.
Milhares de apoiadores participaram dos protestos. Cabello caminhou com a multidão por uma importante avenida de Caracas.
"Nós estamos dispostos a ir até onde for preciso para defender nosso presidente Nicolás Maduro e nossa primeira-dama", disse Sara Rodríguez. "Estamos aqui dispostos a defender isso até que Maduro volte."
"A mulher que está representando agora, que assumiu a presidência interina, é uma mulher revolucionária, é o máximo, é uma mulher de confiança", afirmou, por sua vez, Sara Fernández, de 70 anos.
Na segunda-feira, em meio à instalação do Parlamento e à posse, 14 jornalistas foram detidos em Caracas. Quase todos pertenciam a veículos internacionais. Outros dois foram retidos na fronteira com a Colômbia, segundo o sindicato da imprensa, que informou que todos foram libertados.
A repressão política não pode ser tolerada na Venezuela, declarou nesta terça-feira o secretário-geral da OEA, Albert Ramdin, em uma sessão extraordinária da Organização dos Estados Americanos.
A.Ammann--VB