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Aparência, genes, hormônios: quando o esporte analisa os sinais de feminilidade
A imposição de testes genéticos de feminilidade a atletas mulheres como condição para a participação em competições femininas no futuro, conforme decidido pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) nesta quinta-feira (26), remete a tempos passados: há décadas, o mundo dos esportes oscila entre diversos critérios para definir a feminilidade.
Atletas do sexo feminino tiveram que passar por diversos controles, desde exames morfológicos a análises cromossômicas, antes que fossem introduzidos os regulamentos referentes aos níveis de testosterona.
- A era dos desfiles humilhantes -
Já nos Jogos Olímpicos de Berlim 1936, quando a feminização do esporte de elite mal dava seus primeiros passos, surgiram diversas controvérsias a respeito da aparência física de várias competidoras, que alguns consideravam excessivamente atléticas.
Na ausência de um quadro regulatório sobre a questão, as autoridades alemãs examinaram a velocista americana Helen Stephens para "confirmar" sua feminilidade: a obsessão da época, alimentada pela politização das rivalidades esportivas, era detectar homens escondidos entre as mulheres.
Ao mesmo tempo, a descoberta de várias atletas criadas como meninas, mas que possuíam genitália ambígua desde o nascimento, como a lançadora de dardo britânica Mary Weston e a saltadora em altura alemã Dora Ratjen, deflagrou os primeiros debates a respeito da intersexualidade.
Por sugestão do futuro presidente do COI Avery Brundage, tiveram início então duas décadas de exames visuais e ginecológicos, conduzidos tanto por órgãos nacionais quanto pela IAAF, a organização predecessora da atual World Athletics.
Esse período terminou em 1966 com o "desfile nu" das participantes do Campeonato Europeu de Atletismo, em Budapeste, diante de uma banca de médicos, algo amplamente considerado humilhante pelas atletas.
- Ascensão e declínio dos testes cromossômicos -
A partir de 1967, a IAAF e o COI optaram por testes genéticos, então elogiados por sua simplicidade e confiabilidade.
O objetivo é restringir as competições femininas às portadoras de dois cromossomos X, primeiro pela detecção dos "corpos de Barr" e, posteriormente, na década de 1990, pela detecção do gene SRY, considerado como indicador de masculinidade. Esse é o gene que vai determinar os resultados dos testes do COI a partir dos Jogos de Los Angeles de 2028.
Alguns cientistas, entre eles o geneticista finlandês Albert de la Chapelle, alertaram desde muito cedo que o sexo biológico é uma questão muito mais complexa do que os marcadores cromossômicos, os quais ignoram a diversidade de formas de intersexualidade.
O caso da barreirista espanhola María José Martínez Patiño serve como um exemplo claro: desclassificada em 1985 devido aos seus cromossomos XY, ela foi impedida de participar dos Jogos Olímpicos de Seul 1988. No entanto, acabou comprovando sua insensibilidade total à testosterona, o que a impedia de obter qualquer vantagem atlética a partir de sua constituição genética.
Essa nuance não é um caso isolado: nos Jogos de Atlanta, em 1996, oito competidoras — de um total de 3.387 — testaram positivo para o gene SRY, e todas elas acabaram sendo reintegradas após a comprovação de uma insensibilidade parcial ou total aos andrógenos.
Diante da pressão da comunidade científica e da Comissão de Atletas, o COI abandonou os testes genéticos em 1999, considerando-os excessivamente custosos e de relevância esportiva questionável.
- Testosterona e protestos -
Um caso impactou o mundo em 2009 e gerou debates desde então: a atleta sul-africana Caster Semenya foi campeã dos 800 metros no Mundial de Berlim e trouxe para o centro das atenções no atletismo a questão do "hiperandrogenismo", isto é, a produção natural de níveis elevados de testosterona por algumas atletas intersexuais.
A IAAF estabeleceu, então, um nível máximo de testosterona para competir na categoria feminina, mas o foco nesse hormônio expôs a organização a problemas nos tribunais.
A atleta indiana Dutee Chand recorreu em 2015 à Corte Arbitral do Esporte (CAS), que exigiu da IAAF que apresentasse provas mais contundentes a respeito da relação entre a testosterona e o desempenho atlético, estabelecendo o ano de 2017 como prazo limite.
No final de 2018, o atletismo finalmente restringiu seu regulamento às distâncias para as quais seu diretor médico havia coletado dados — dos 400 metros até uma milha —, exigindo que atletas mulheres hiperandrogênicas reduzissem seus níveis de testosterona caso desejassem competir nessas provas, uma medida que gerou protestos na comunidade médica.
G.Schmid--VB