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'Nossas crianças serão as próximas', temem quenianos enquanto a seca devasta o gado
No noroeste do Quênia atingido pela seca, moradores foram forçados a arrastar o gado morto para locais distantes para queimá-lo e afastar as hienas e o mau cheiro da morte.
O condado de Mandera, na fronteira do Quênia com a Etiópia e a Somália, não registra chuvas desde maio e está prestes a enfrentar uma grave emergência hídrica.
"Perdi todas as minhas vacas e cabras, e as queimei aqui", disse à AFP Bishar Maalim Mohammed, de 60 anos, morador da vila de Tawakal.
Nesse povoado, onde a maioria é de pastores que dependem dos animais, o último touro que resta mal consegue resistir. Ele permanece no mesmo lugar há uma semana, desidratado, com os ossos visíveis sob a pele, diante do olhar impotente de seu dono.
Ali perto, na vila de Banissa, o reservatório artificial que um dia armazenou 60 mil metros cúbicos de água está agora seco, deixando um espaço árido que as crianças usam como local de brincadeira.
Rebanhos de cabras, vacas e camelos agora precisam caminhar 30 quilômetros para chegar ao reservatório mais próximo, na vila de Lulis, onde disputam o pouco de água restante, racionada pelas autoridades.
"Em duas semanas a água vai acabar... estamos em péssima situação", disse Aden Hussein, morador local de 40 anos.
Mais de 2 milhões de pessoas em 23 condados do Quênia enfrentam o agravamento da insegurança alimentar após a constatação de chuvas escassas na temporada de outubro a dezembro, quando as precipitações ficaram dois terços abaixo da média habitual.
A Autoridade Nacional de Gestão da Seca colocou nove condados em alerta, e Mandera se destaca na fase de "alarme", um nível próximo ao de emergência oficial.
A Rede de Sistemas de Alerta Precoce para Fome indicou recentemente que entre 20 a 25 milhões de pessoas no Quênia, na Somália e na Etiópia precisam de assistência alimentar humanitária, mais da metade em razão da seca.
"Nossas crianças serão as próximas a morrer", lastimou Maalim Mohammed, em Tawakal.
- "Não há mais leite" -
No hospital de Banissa, a chegada de crianças gravemente desnutridas, algumas vindas da vizinha Etiópia, sobrecarregou a ala de pediatria.
Durante uma visita recente, a AFP viu oito crianças com desnutrição severa, entre elas uma menina de 32 meses que pesa apenas 4,5 quilos e outra criança readmitida após ter voltado para casa, onde não havia comida.
"As crianças não estão recebendo a dieta adequada por causa da seca... dependem de leite de camelo ou de cabra, mas não há mais leite", disse no hospital o nutricionista Jalid Ahmed Wethow.
O hospital, que atende cerca de 200 mil pessoas, dispõe de apenas oito latas de leite terapêutico em sua unidade pediátrica, que se esgotarão nesta semana.
A unidade depende de doações de organizações como o Programa Mundial de Alimentos, mas, como países ocidentais vêm reduzindo seus orçamentos desde o ano passado, não recebe nenhum suprimento há seis meses.
O governo queniano e organizações de ajuda como a Cruz Vermelha intensificaram o transporte de água por caminhões, a assistência alimentar e a transferência de recursos em dinheiro, mas afirmam que não conseguem atender à demanda.
- "Tentamos escapar" -
Desesperado, Bishar Mohamed viajou mais de 150 quilômetros com seu rebanho de 170 cabras em busca de pastagens. Cerca de 100 morreram no caminho, e o restante morreu após o retorno à casa, na vila de Hawara.
"Tentamos escapar em busca de lugares melhores, mas não conseguimos", disse à AFP, próximo a uma pilha de cadáveres de cabras. "Caminhei a pé... estou com uma forte dor de cabeça... estamos com sede", acrescentou.
Na vila vizinha de Jabi Bar, a presença de crianças na escola caiu mais da metade, segundo o diretor Ali Haji Shabure, à AFP.
"Apenas 99 crianças estão na escola, a maioria foi embora com os pais", acrescentou Shabure.
As próximas chuvas, se chegarem, só devem ocorrer a partir de abril.
Bishara Maalim, mãe de 10 filhos em Hawara, tem apenas uma esperança para as crianças: "Que Deus as salve".
M.Betschart--VB