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EUA anuncia aliança de países das Américas para 'destruir' cartéis do narcotráfico
O presidente americano, Donald Trump, anunciou neste sábado (7) a criação de uma aliança de 17 países das Américas para "destruir" os cartéis do narcotráfico no continente, durante uma reunião de cúpula realizada em seu clube de golfe em Doral, na Flórida.
"O coração do nosso acordo é o compromisso de usar força militar letal para destruir esses sinistros cartéis e redes terroristas. De uma vez por todas, vamos acabar com eles", declarou Trump aos convidados.
"Os líderes desta região permitiram que grandes áreas do hemisfério ocidental ficassem sob o controle de gangues transnacionais (...) Não vamos permitir que isso aconteça. Vamos ajudar", acrescentou o presidente republicano. "Querem que usemos um míssil? Eles são extremamente precisos. Piu! Mandamos direto para a sala de estar e acabou o membro do cartel".
Antes do anúncio, Trump saudou os 12 convidados, entre eles aliados próximos como o presidente argentino Javier Milei, o equatoriano Daniel Noboa e o salvadorenho Nayib Bukele, a quem chamou de "grande presidente".
Os três presidentes latino-americanos publicaram fotos em redes sociais ao lado de Trump. "Durante muito tempo, as máfias acreditaram que a América era seu território. Que podiam cruzar fronteiras, movimentar drogas, armas e violência sem consequências. Esse tempo acabou", afirmou Noboa na rede social X.
O encontro inseriu-se na versão adaptada de Trump da histórica Doutrina Monroe, com a qual ele prometeu intervir para promover os interesses de Washington nas Américas, aumentar a segurança dos Estados Unidos e conter a influência de potências como a China.
Um exemplo dessa postura foi a operação das forças americanas que resultou na derrubada e captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em 3 de janeiro, em Caracas, ou o bloqueio imposto à entrega de petróleo a Cuba.
A reunião também ocorre no contexto da guerra iniciada por Washington e Israel contra o Irã na semana passada.
- Insegurança -
Além de Bukele, Milei e Noboa, Trump recebeu em Doral, perto de Miami, os presidentes da Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Honduras, Panamá, Paraguai, Guiana e Trinidad e Tobago, além do presidente eleito do Chile, José Antonio Kast.
A maioria dos convidados compartilha a preocupação de Washington com o avanço do crime organizado no continente, um fenômeno que afeta até países que até pouco tempo eram considerados relativamente seguros, como Chile e Equador, explica Irene Mia, especialista em América Latina do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês).
A situação ajudou a direita latino-americana a vencer eleições recentes e explica por que o intervencionismo de Trump gerou menos rejeição do que o esperado em uma região com longa história de tensões com Washington, acrescenta a analista.
Alguns líderes, como Noboa, também reforçaram os laços com os Estados Unidos.
O presidente equatoriano anunciou nesta semana "operações conjuntas" com Washington e aliados regionais contra os narcotraficantes, que transformaram um dos países antes mais seguros da América Latina em um dos mais violentos em poucos anos.
- 'Equilíbrio delicado' -
Além da afinidade ideológica com Trump, alguns líderes aproveitaram a boa relação com o republicano.
O hondurenho Nasry Asfura recebeu, por exemplo, apoio decisivo do presidente americano nas eleições do ano passado, e no caso de Milei, a sintonia com Trump facilitou que os Estados Unidos concedessem apoio de 20 bilhões de dólares (R$ 102,98 bilhões) por meio de um acordo de swap cambial em 2025.
Mas a coalizão de governos aliados levanta dúvidas sobre seu alcance e durabilidade, segundo Irene Mia. A especialista afirma que as propostas de Washington para a região se baseiam em uma agenda essencialmente negativa. "Tudo se resume às ameaças que a região representa para a segurança dos Estados Unidos: migração e crime organizado", diz.
Ela também aponta outra fragilidade da cúpula dedicada ao combate aos cartéis: a ausência do México - que descreve como "o diretor executivo da cadeia de fornecimento do narcotráfico" - e do Brasil, cujos grupos criminosos são fundamentais para o envio de drogas à Europa, governados pelos presidentes de esquerda Claudia Sheinbaum e Luiz Inácio Lula da Silva.
O próprio Trump apontou neste sábado o México como "o epicentro da violência dos cartéis", que alimentam "grande parte do derramamento de sangue" nas Américas. "Os cartéis estão comandando o México. Não podemos ter isso perto de nós", afirmou.
Para Irene Mia, apesar da aparente sintonia entre governos de direita da região e Washington, o apoio desses países "é bastante frágil, devido à relação problemática" entre a América Latina e os Estados Unidos. "É um equilíbrio muito delicado saber se a população aprovará a política de Trump, e por quanto tempo", apontou.
A.Ammann--VB