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Narcotráfico se infiltra na política e justiça do Equador
Oito juízes, um político e funcionários do Judiciário equatoriano foram detidos nesta segunda-feira (4), em meio a um expurgo para romper os vínculos com o narcotráfico, que repassou licores finos, joias e maços de notas de dinheiro em troca de favores nos tribunais.
Casas e gabinetes de juízes, de um ex-deputado e do atual titular e de uma ex-presidente da Corte de Justiça foram revistados na província costeira de Guayas (sudoeste), destacou a Promotoria na rede social X.
Doze pessoas foram detidas no chamado caso Purga (Expurgo), que surgiu da grande investigação Metástasis, revelada em dezembro e descrita pela procuradora-geral, Diana Salazar, como a pedra angular da "narco-política" no Equador, transformado em reduto do tráfico de drogas para os Estados Unidos e a Europa.
Juízes, políticos, promotores, policiais, um ex-diretor da autoridade penitenciária e outros membros de esferas estratégicas do poder são acusados de beneficiar organizações criminosas em troca de dinheiro, ouro, apartamentos e serviços de prostituição.
A Metástasis expôs os vínculos entre o narcotráfico e diversas instituições do Estado, ao revelar milhares de diálogos entre um chefe assassinado na prisão e funcionários da justiça.
Entre os indícios encontrados hoje na casa do ex-legislador Pablo Muentes, do direitista Partido Social Cristão (PSC), estão duas armas de fogo, relógios Rolex, licores, joias, documentos, 7.535 dólares (R$ 37.274) e 505 euros (R$ 2.713), apontou a Procuradoria.
Salazar informou que recaem sobre os detidos suspeitas de que "permitiram que a política legislativa, a justiça e o narcotráfico trabalhassem de mãos dadas".
"Ninguém está acima da lei. Todo cidadão deve responder por seus atos. A justiça deve, ainda, concretizar e detalhar suas acusações e provas", afirmou no X o tradicional partido PSC (do ex-presidente León Febres Cordero (1984-88).
O Conselho da Magistratura de Guayas ressaltou em nota que ajudará "no avanço das investigações, sem descartar possíveis ações disciplinares" contra seus funcionários.
- 'Justiça sequestrada' -
O caso Purga "dá continuidade à depuração que o país requer neste momento", diz Diana Salazar em vídeo divulgado pela entidade acusadora, acrescentando: "Continuamos trabalhando nesta limpeza das instituições do Estado".
"Contamos com elementos que evidenciam a necessidade de sanear o sistema judicial para nos livrar da corrupção e da profunda decomposição estrutural que temos testemunhado nos últimos meses", expressou a procuradora, que denunciou ter sido ameaçada por mafiosos.
Em dezembro, o embaixador dos Estados Unidos em Quito, Michael Fitzpatrick, advertiu que a justiça equatoriana é considerada "o prêmio maior" por narcotraficantes para obter a impunidade.
Casos como Purga e Metástasis evidenciam "que temos estado com a justiça sequestrada a serviço de máfias, delinquentes e corruptos", disse à AFP Germán Rodas Chaves, coordenador da Comissão Nacional Anticorrupção, uma organização civil.
De acordo com a Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, "a corrupção é galopante no Equador, com atores estatais envolvidos no tráfico de drogas e de ouro ilegal nos mercados do crime".
Dias antes de deixar o poder, em novembro, o governo do direitista Guillermo Lasso (2021-2023) divulgou a Estratégia Nacional contra o Crime Organizado 2023-2030, segundo a qual as quadrilhas têm "a capacidade de infiltrar e cooptar nos estamentos da segurança e justiça".
- Combinação fatal -
"Os narcotraficantes, de um lado, e a corrupção de colarinho branco, do outro, são os dois fatores que afundam o país", afirmou Rodas Chaves.
Diante de uma investida violenta, em janeiro, de quadrilhas do tráfico vinculadas aos cartéis do México e da Colômbia, o presidente Daniel Noboa declarou o país "em conflito armado interno" e chamou de "terroristas" e "beligerantes" cerca de 20 organizações criminosas. Desde então, 65 toneladas de drogas foram apreendidas no Equador, localizado entre a Colômbia e o Peru, os principais produtores mundiais de cocaína.
Em agosto, o candidato à Presidência Fernando Villavicencio, jornalista investigativo que revelou escândalos de corrupção que salpicaram autoridades governamentais, foi morto por pistoleiros. Ele havia denunciado, dias antes, ter sido ameaçado por Adolfo "Fito" Macías, chefe de uma das principais organizações criminosas do país, que fugiu em janeiro de um presídio em Guayaquil (capital de Guayas) onde cumpria pena de 34 anos de prisão por crime organizado, narcotráfico e homicídio. O mafioso ainda não foi recapturado.
F.Stadler--VB