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Medo e incerteza entre latino-americanos retidos no Congo após expulsão dos EUA
Quinze imigrantes latino-americanos expulsos dos Estados Unidos estão há cinco dias retidos em um hotel em Kinshasa, na República Democrática do Congo, à espera de um destino incerto a milhares de quilômetros de suas casas.
"Eu não queria ir para o Congo. Tenho medo, não conheço o idioma", afirma Gabriela, uma colombiana de 30 anos que faz parte do grupo de solicitantes de asilo rejeitados pelos EUA, que chegou após 27 horas de voo, algemada nas mãos e pés.
Eles só souberam qual seria o destino poucos dias antes da expulsão: um país na África Central, um dos mais pobres do mundo, a milhares de quilômetros do continente americano.
A República Democrática do Congo recebeu na última sexta-feira, pela primeira vez, imigrantes deportados dos Estados Unidos.
O país passa a engrossar a lista de nações africanas, entre elas Camarões, Guiné Equatorial, Essuatíni, Gana, Ruanda e Sudão do Sul, que nos últimos meses aceitaram participar do polêmico plano de Washington para enviar estrangeiros em situação irregular a terceiros países.
Embora o plano conte com apoio financeiro e logístico dos Estados Unidos, as autoridades dos países de acolhimento fornecem pouquíssimas informações sobre o destino dos migrantes após a chegada ao seu território.
No entanto, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) indicou à AFP que, quando eles chegam, recebem vistos de curta duração e lhes é oferecido "retorno voluntário assistido" caso o solicitem.
Desde que chegaram a Kinshasa, uma megalópole com mais de 17 milhões de habitantes, os 15 latino-americanos vivem em um complexo a poucos quilômetros do aeroporto onde desembarcaram.
Dormem em pequenas casas de paredes brancas, umas ao lado das outras. Estão proibidos de sair do recinto e não podem receber visitas.
Vários veículos da polícia e do exército estão parados no estacionamento externo, onde às vezes se vê funcionários de uma empresa militar privada que a AFP não pôde identificar.
- "Desumano" -
Eles passam o dia grudados em seus celulares tentando entrar em contato com suas famílias.
Nenhum deles fala francês, o idioma oficial do país, e cada um afirma ter recebido 100 dólares (496 reais, na cotação atual) da OIM.
"Vários dos nossos amigos ficaram doentes, assim como eu", diz Gabriela. "Tivemos febre, vômitos e problemas estomacais. Mas nos dizem que é normal e que temos que nos adaptar."
Alguns receberam medicamentos, mas ela conta que nenhum profissional de saúde foi examiná-los.
Quatro residentes do hotel disseram à AFP que ganharam um visto de sete dias, prorrogável por três meses. No entanto, afirmam que, após os sete dias, foram ameaçados de ter o apoio suspenso e de serem "abandonados à própria sorte".
"Eles nos encurralam porque dizem: 'se vocês não aceitarem o programa de repatriação, vão ficar presos neste problema aqui no Congo'", relata Gabriela, visivelmente abalada. "É desumano e injusto", lamenta.
De dentro do complexo, ouve-se o barulhento caos da capital congolesa. Um fluxo constante de micro-ônibus e carros que buzinam em uma estrada esburacada, cercada de prédios em ruínas.
A maioria dos habitantes da superpovoada capital não dispõe de acesso confiável nem à água encanada nem à eletricidade. E quase três quartos dos congoleses vivem abaixo da linha da pobreza, segundo o Banco Mundial.
"Recebo três refeições por dia, os funcionários do hotel limpam os quartos e estamos bem protegidos", conta Hugo Palencia Ropero, um colombiano de 25 anos que afirma ter passado cinco meses detido nos Estados Unidos antes de ser deportado.
Mas ele está muito preocupado com o futuro. "Tenho mais medo de estar aqui na África do que na Colômbia (...) Se passarem os sete dias e não recebermos mais ajuda, as coisas vão ficar muito difíceis para nós, sobretudo porque não temos permissões de trabalho", destaca.
Por isso, ele diz estar disposto a aceitar "qualquer documento de viagem", desde que "possa sair desse país".
I.Stoeckli--VB