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Presidente eleito receberá uma Bolívia impaciente e cheia de desafios
O presidente eleito da Bolívia, Rodrigo Paz (centro-direita), receberá um país com uma economia à beira do colapso e uma população exausta após 20 anos de governos socialistas.
Paz, um economista de 58 anos, venceu as eleições de domingo com 54,5% dos votos apurados, à frente do ex-presidente de direita Jorge Quiroga, com 45,4%, segundo a apuração oficial de 97%. Ele assumirá o cargo em 8 de novembro.
Suas promessas de campanha se concentraram em resolver com urgência a severa crise econômica, a pior que o país enfrenta em quatro décadas.
Mas ele terá que agir com muita habilidade para implementar suas propostas, tanto no Parlamento quanto nas ruas, que esperam soluções imediatas.
"A paciência está se esgotando e vai acabar exatamente quando o próximo governo assumir seu mandato", diz à AFP a cientista política Daniela Osorio Michel, pesquisadora do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga).
As filas de veículos se acumulam nas ruas das principais cidades da Bolívia, com 11,3 milhões de habitantes. É o cenário da crise.
- Estado de crise -
O governo de Luis Arce, que renunciou à reeleição devido à sua impopularidade, esgotou suas reservas de dólares para manter uma política agonizante de subsídios aos combustíveis.
Há quase dois anos, a Bolívia sofre com a escassez de dólares e combustíveis, o que desencadeou uma inflação de 23% na comparação anual em setembro.
Paz comprometeu-se a ajustar as contas da nação e cortar mais da metade dos gastos bilionários com subsídios aos combustíveis, embora tenha afirmado que os manterá para o transporte público e outros setores críticos.
Sua proposta é menos radical do que a de seu rival Quiroga e evitava mencionar um choque econômico.
"Sua visão gradualista pode enfrentar tropeços" para alcançar resultados, aponta o economista Napoleón Pacheco, professor da Universidade Mayor de San Andrés, na Bolívia.
Quando os ajustes são feitos gradualmente, podem ter um efeito inverso ao desejado, assegura.
As ruas e os sindicatos também terão influência sobre o que o novo governo poderá fazer.
"Tomara que lhe deem um pouco de paciência (...), mas acho que isso só vai acontecer se" no novo governo "realmente entrarem em ação imediatamente, como prometeram", explica à AFP Gabriela Keseberg, cientista política boliviana.
Osorio Michel previu que "haverá rejeição ao corte dos subsídios".
- Sem maiorias -
A maior bancada parlamentar será a do Partido Democrata Cristão da Paz, com 46 deputados, seguida pela Aliança Livre de Quiroga, com 39. Nenhuma delas alcança maioria por si só.
A campanha eleitoral deixou muito desgastadas as relações entre ambos os candidatos e seus grupos políticos, com constantes acusações mútuas de guerra suja.
"São feridas difíceis de resolver", diz à AFP a socióloga María Teresa Zegada.
"Para alcançar os dois terços" necessários para realizar algumas mudanças estruturais prometidas, "será preciso fazer acordos", acrescenta.
Por enquanto, o milionário de centro-direita Samuel Doria Medina, um ex-candidato que ficou de fora do segundo turno, anunciou no domingo que apoiaria quem ganhasse. Ele lidera a Aliança Unidade, a terceira força política mais importante, com 26 deputados que podem não ser suficientes para alcançar a maioria.
- O grande opositor -
O ex-presidente Evo Morales será o principal obstáculo para Paz. O líder cocalero, que governou por três mandatos seguidos entre 2006 e 2019, não pôde se candidatar mais uma vez devido a uma decisão judicial que o impediu.
Em uma entrevista em agosto à AFP, ele afirmou que defenderia as conquistas de seu antigo mandato dando "batalha nas ruas e estradas" diante de um eventual governo de direita.
Morales está há um ano na região cocalera de Chapare, no centro do país, foragido de uma ordem de prisão por um caso de tráfico de menor que ele nega.
Paz afirmou que seu governo fará cumprir a lei e as decisões judiciais.
C.Bruderer--VB