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'Como tráfico de pessoas': a odisseia de um cubano deportado pelos EUA para um remoto país africano
A família do cubano Roberto Mosquera não tinha notícias de seu paradeiro desde que ele foi preso por agentes de imigração nos Estados Unidos, até que uma publicação do governo Trump nas redes sociais revelou que ele havia sido deportado para o remoto reino africano de Eswatini.
Agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) detiveram o homem de 58 anos em um posto de controle em 13 de junho em Miramar, Flórida, disse Ada, uma amiga próxima da família que falou à AFP sob um pseudônimo por medo de retaliação.
As autoridades informaram à família que Mosquera havia sido deportado para sua Cuba natal, de onde ele partiu quando tinha 13 anos.
Mas em 16 de julho, Ada reconheceu seu amigo de longa data em uma foto publicada no X pela vice-secretária do Departamento de Segurança Nacional (DHS), Tricia McLaughlin, que anunciou que Mosquera e outros quatro detidos haviam sido transferidos para Eswatini.
Ada nunca tinha ouvido falar deste pequeno país sem litoral no sul da África, situado entre a África do Sul e Moçambique e governado desde 1986 pelo rei Mswati III, acusado por seus críticos de repressão.
O cubano foi enviado para lá juntamente com cidadãos da Jamaica, Laos, Vietnã e Iêmen, segundo um acordo ao qual a AFP teve acesso, que estipula que Eswatini concordou em receber 160 deportados em troca de 5,1 milhões de dólares (R$ 27,7 milhões na cotação atual) para desenvolver "sua capacidade de gestão de fronteiras e imigração".
Orville Etoria, um migrante originário da Jamaica, foi repatriado daquele reino africano para seu país em setembro, mas em 6 de outubro Eswatini recebeu mais dez expulsos, informou seu governo.
O governo Trump afirma que os estrangeiros enviados para lá são "criminosos" condenados por acusações que variam de estupro de crianças a assassinato.
Mas seus advogados e familiares garantem à AFP que todos eles já cumpriram suas penas e viviam em liberdade nos Estados Unidos há anos.
Em Eswatini, os migrantes foram encarcerados em uma prisão de segurança máxima e só podem falar com suas famílias em curtas videochamadas sob o olhar atento de guardas armados, garantem suas equipes jurídicas à AFP.
Esses homens estão em um "buraco negro legal", diz o advogado Tin Thanh Nguyen, que vive nos Estados Unidos.
– Não é um "monstro" –
"É como um pesadelo", diz Ada, que conhece Mosquera desde a infância.
A publicação de McLaughlin no X descreve o cubano e os outros quatro deportados como indivíduos de uma "barbárie" singular, pela qual seus próprios países se recusaram a recebê-los.
Na foto, Mosquera ostenta uma espessa barba branca, com tatuagens aparecendo através da camisa laranja. Ele é descrito como um membro da gangue Latin King, condenado por "homicídio em primeiro grau".
Sua amiga Ada, contactada pela AFP por meio de seu advogado, diz que ele "não é o monstro nem o prisioneiro bestial que dizem".
Embora ela enfatize que Mosquera só foi membro de uma gangue na juventude, ele foi condenado por tentativa de homicídio em julho de 1989 por atirar na perna de um homem.
Documentos judiciais vistos pela AFP indicam que ele foi condenado a nove anos de prisão, libertado em 1996 e preso novamente em 2009 por crimes como roubo de carro e agressão a um agente de segurança.
"Quando Roberto foi embora, sua vida mudou", diz Ada. "Ele se casou, teve quatro filhas lindas. Ele se manifestou contra a violência de gangues e tem uma família que o adora".
Um juiz ordenou sua deportação depois que sua primeira condenação revogou sua autorização de residência, mas ele permaneceu nos Estados Unidos porque Cuba não aceita deportados, dizem seus advogados.
Ele se apresentava às autoridades de imigração todos os anos e trabalhava para uma empresa de encanamento há 13 anos quando foi detido e deportado, conta Ada à AFP.
– "É atroz" –
O envio desses homens para Eswatini faz parte da campanha de Trump para expulsar imigrantes em situação irregular para "terceiros países".
Outros estrangeiros foram levados para a África, para países como Gana, Ruanda e Sudão do Sul, em acordos pouco claros que foram criticados por grupos de direitos humanos.
O advogado de um deles disse à AFP que eles só foram informados de que seriam deportados quando estavam a bordo do avião.
"É como um tráfico de pessoas moderno, usando canais oficiais", disse Nguyen, que representa migrantes do Vietnã e do Laos.
Os deportados tiveram contato negado com seus advogados e também com um advogado local, que tentou visitá-los no Centro Correcional de Matsapha, 30 quilômetros ao sul da capital, Mbabane, conhecido por abrigar presos políticos.
O advogado Sibusiso Nhlabatsi afirma que agentes penitenciários lhe disseram que os homens se recusaram a vê-lo.
"Sabemos com certeza que isso não é verdade", afirma Alma David, advogada americana de Mosquera e de outro deportado do Iêmen.
Seus clientes disseram às famílias que nunca foram informados das visitas de Nhlabatsi e que buscaram assessoramento jurídico em diversas ocasiões.
Na semana passada, Nhlabatsi obteve um pedido judicial para representar os homens, mas o governo recorreu imediatamente, o que teve um efeito suspensivo.
Eswatini, sob o governo de Mswati há 39 anos, afirmou que pretende devolver todos os deportados aos seus países de origem.
Mas até agora, apenas um foi repatriado: o jamaicano Etoria, que "ainda está se adaptando à vida em um país onde não vive há 50 anos", disse sua advogada em Nova York, Mia Unger, à AFP.
No caso do cubano Mosquera, a última vez que sua família o viu, em uma videochamada da prisão no país africano na semana passada, ele havia perdido cabelo e "emagreceu muito", diz Ada.
"Isso afetou a todos nós", diz ela, com a voz embargada. "É atroz. É uma sentença de morte."
F.Stadler--VB