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Peso argentino se desvaloriza mais de 8% após suspensão do controle cambiário
O peso argentino se desvalorizou 8,4% na abertura dos mercados nesta segunda-feira (14), demonstrou o Banco Nación (estatal), após o anúncio, na sexta, da liberação parcial dos controles cambiários que vigoravam desde 2019.
O peso abriu nesta segunda a 1.190 por dólar, um valor superior à cotação de 1.097 de sexta-feira, segundo o maior banco argentino. A desvalorização é uma reação à suspensão das restrições de compra de divisas, anunciada pelo governo após conseguir o apoio do Fundo Monetário Internacional, com um empréstimo de 20 bilhões de dólares (117,4 bilhões de reais, na cotação atual).
A adoção do novo esquema coincide com a visita do secretário de Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que se reunirá com o presidente Javier Milei às 15h locais (mesmo horário em Brasília), após o que se espera uma declaração conjunta.
"Não existe mais o dólar oficial, há um dólar único, que é o de mercado", comemorou Milei em declarações à Rádio El Observador, ao lembrar que a eliminação dos controles cambiários foi uma promessa de campanha.
A eliminação do chamado 'cepo', que limitava a 200 dólares mensais (R$ 1.174) a compra de divisas para pessoas físicas, ocorre após semanas de uma crise cambiária, que levou o Banco Central a vender mais de 2 bilhões de dólares (11,7 bilhões de reais) para sustentar a moeda.
O esquema fez o câmbio quintuplicar e impulsionou um mercado paralelo.
A medida anunciada na sexta-feira implica que a cotação da moeda flutuará segundo a oferta e a demanda com um piso de 1.000 pesos por dólar americano e um teto de 1.400 pesos. O Banco Central poderá intervir para manter a cotação entre as duas bandas.
"É preciso baixar um pouco a expectativa deste primeiro dia, estamos preparados, mas será um processo", disse, nesta segunda-feira, Santiago Furiase, membro da diretoria do Banco Central ao canal LN+. Se o peso ficar no teto da banda, isto traz implícita uma depreciação de 30%.
- "O problema acabou" -
A partir desta segunda-feira, as pessoas físicas, que antes só podiam comprar até 200 dólares por mês, agora podem adquirir uma quantidade ilimitada de dólares por meio de operações bancárias, e um máximo de 100 dólares (R$ 584) em dinheiro vivo. As pessoas jurídicas, ao contrário, precisam esperar até 2026 para enviar dividendos para o exterior.
Enquanto isso, na rua Florida, no centro de Buenos Aires, onde tradicionalmente os dólares são comercializados no mercado paralelo, não eram vistos, na manhã desta segunda, os muitos cambistas informais que costumam oferecer "Câmbio, câmbio!" aos pedestres.
"Todo mundo está esperando para ver o que vai acontecer", disse um deles à AFP, sem querer se identificar.
O governo usou a fixação da cotação do dólar como âncora das expectativas de inflação. As novas medidas geram dúvidas sobre seus efeitos nos preços.
O controle da inflação é o principal capital político do presidente ultraliberal, que este ano ele passará por seu primeiro teste eleitoral nas legislativas de outubro.
O rigoroso plano de austeridade do presidente, com ajustes drásticos nas aposentadorias, na educação e na saúde, levou a uma queda da inflação de 211% em 2023 (quando o peso foi desvalorizado em 52%) para 118% no ano passado.
No entanto, a desaceleração do aumento do custo de vida perdeu força em fevereiro, quando registrou 2,4%, subindo para 3,7% em março passado.
Mas o presidente Milei prometeu que "em meados do ano que vem, acabou o problema da inflação na Argentina".
Furiase também minimizou o impacto inflacionário do novo regime cambiário. "As pessoas vão levar um tempo (para se acostumar), estão há anos com o chip de que a cada vez que o dólar sobe, associa-se à inflação", disse.
"Certamente, a cotação vai ter uma reação inicial, mas em seguida será uma trajetória rumo ao piso da banda", especulou.
K.Sutter--VB