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Trump declara guerra comercial e deixa a economia mundial em cenário de incerteza
Os parceiros comerciais dos Estados Unidos ameaçaram nesta quinta-feira (3) responder à série de tarifas anunciadas na quarta-feira pelo presidente americano, Donald Trump, mas deixaram a porta aberta para o diálogo.
Após os anúncios do presidente republicano, apresentados como uma "declaração de independência econômica" para promover uma "era de ouro" nos Estados Unidos, os mercados financeiros sentiram o golpe: na Ásia, a Bolsa de Tóquio registrou queda de quase 3% e na Europa, Frankfurt operava em baixa de 2,45%, Paris cedia 2,15% e Londres recuava 1,44%.
"Durante décadas, nosso país foi saqueado, violado e devastado por nações próximas e distantes, aliadas e inimigas, por igual", disse Trump na quarta-feira no jardim da Casa Branca, antes de mostrar a lista dos parceiros comerciais que seriam alvo da sanção.
A ofensiva protecionista consiste em uma tarifa aduaneira mínima de 10% para todas as importações, e sobretaxas seletivas para certos países considerados particularmente hostis em termos comerciais.
A conta sai cara para a China - cujos produtos serão taxados em 34%, que se somarão aos 20% impostos àquele país em fevereiro - e para a União Europeia, que terá um adicional de 20%. As taxas serão de 24% para o Japão, 26% para a Índia, 31% para a Suíça e 46% para o Vietnã, onde a Bolsa de Hanói também operava em queda expressiva.
Diversas economias latino-americanas estão na lista da Casa Branca: Brasil, Colômbia, Argentina, Chile, Peru, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Guatemala, Honduras e El Salvador. No entanto, a tarifa aplicada a esses países será a mínima, de 10%. A exceção é a Nicarágua, que será taxada em 18%.
A tarifa universal de 10% entrará em vigor às 4h01 GMT (1h01 de Brasília) do próximo dia 5, e as mais elevadas em 9 de abril.
- "Solução negociada" -
As reações oscilam entre pedidos de diálogo e ameaças de represálias, mas, até o momento, ninguém anunciou uma resposta concreta.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, considerou que as tarifas constituem um "duro golpe à economia mundial" e defendeu o diálogo, embora tenha afirmado que a UE está "preparada para responder".
A Alemanha declarou que apoia a União Europeia na busca de uma "solução negociada" com Washington, enquanto a França afirmou que, na eventual resposta europeia que está sendo negociada, cogita "atacar os serviços digitais".
O Reino Unido, que está negociando um tratado comercial bilateral, saiu relativamente ileso, afetado apenas pela tarifa universal de 10%. Ainda assim, o primeiro-ministro Keir Starmer admitiu que a medida terá "um impacto" na economia britânica.
Enquanto alguns países pediram por contenção e diálogo para evitar uma escalada, outros criticaram abertamente a política americana.
A China afirmou que "se opõe de modo veemente" às tarifas e anunciou "contramedidas para proteger" seus direitos e interesses, segundo um comunicado do Ministério do Comércio.
O governo do Japão considera que os Estados Unidos podem ter infringido as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e seu acordo bilateral. A Austrália denunciou medidas que "não são o ato de um amigo".
Para Maurice Obstfeld, economista do Instituto Peterson de Economia Internacional (PIIE), as tarifas representam "uma declaração de guerra contra a economia mundial" e serão "absolutamente devastadoras".
Os encargos são calculados para refletir também as chamadas barreiras não tarifárias que os países impõem à entrada de produtos americanos, como, por exemplo, as regulamentações sanitárias e os padrões ambientais.
Alguns produtos, como cobre, produtos farmacêuticos, semicondutores, madeira, ouro, energia e "certos minerais" não estão sujeitos às tarifas anunciadas na quarta-feira, segundo uma nota da Casa Branca.
- E os vizinhos? -
Nem México nem Canadá, os parceiros dos Estados Unidos no tratado de livre comércio da América do Norte (T-MEC), estão na lista.
"Neste momento, Canadá e México ainda estão sujeitos à emergência nacional relacionada com o fentanil e a imigração, e esse regime tarifário vai se manter enquanto essas condições persistirem. Eles estarão sujeitos a esse regime, e não ao novo", declarou um funcionário da Casa Branca. Isso significa tarifas de 25% (10% para os hidrocarbonetos canadenses), com exceção dos produtos cobertos pelo T-MEC.
Outros países, como Cuba, Belarus, Coreia do Norte ou Rússia, também não estão na lista porque enfrentam sanções que diminuem as relações comerciais.
Trump é fascinado pelo protecionismo do fim do século XIX e começo do século XX nos Estados Unidos, e vê as tarifas como uma espécie de varinha mágica capaz de reindustrializar o país, reequilibrar a balança comercial e eliminar o déficit fiscal.
Desde o seu retorno à Casa Branca, em janeiro, o republicano aumentou tarifas não apenas para seus vizinhos e a China, além de impor taxas sobre o aço e o alumínio, independente de sua origem.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, prometeu "lutar" com "contramedidas".
Contudo, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, desaconselhou a adoção de represálias para evitar uma "escalada" da tensão comercial.
"Sentem-se, absorvam isso, vamos ver como será. Porque, se houver retaliação, haverá uma escalada. Se não, este é o nível máximo", afirmou.
"Querem evitar as tarifas? Então instalem-se nos Estados Unidos", respondeu Trump aos que criticam o impacto das medidas para as empresas.
A.Ammann--VB