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Tarifas de Trump sobre o México: golpe econômico e oportunidade para negociar
O golpe tarifário com o que Donald Trump pretende interromper mais de três décadas de livre comércio com o México prevê sérios danos econômicos, mas também represálias e opções de negociação diante do crescente protecionismo dos Estados Unidos.
O presidente republicano reiterou, na segunda-feira, que implementará tarifas de 25% ao México e ao Canadá a partir de 1º de fevereiro para pressionar estes dois países, com quem mantém um acordo comercial desde 1994, a interromper a migração irregular e o tráfico de fentanil para os EUA.
O governo canadense advertiu na terça-feira que "responderá" com firmeza, enquanto a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, foi cautelosa ao destacar que os decretos assinados até agora por Trump não incluem as tarifas.
"É importante sempre ter a cabeça fria (...) O que o presidente Donald Trump assinou é que o acordo continua" e se iniciam as negociações para a revisão já programada para 2026, disse a líder esquerdista.
As tarifas violam o pacto comercial (T-MEC) reformado em 2020 por exigência de Trump. Também atingem a economia mexicana, que envia 83% de suas exportações para os Estados Unidos.
"Ao impor tarifas sobre todos os produtos, você viola o tratado e dinamita a confiança do setor privado. Isso esfria todos os investimentos", disse à AFP Diego Marroquín, especialista em comércio internacional do Wilson Center.
O impacto afetaria principalmente os setores automotivo e eletrônico do México, que enviam 50% de sua produção ao mercado americano, afirma a consultoria britânica Capital Economics.
Os prejuízos ao setor automotivo, principal do T-MEC que exportou US$ 36 bilhões (R$ 218 bilhões na cotação atual) para os EUA em 2023, seriam dramáticos: ele representa 5% do PIB mexicano e emprega um milhão de trabalhadores, segundo a empresa.
Os automóveis e os eletrônicos também representam 30% dos fluxos de investimento dos Estados Unidos — o maior investidor estrangeiro no México — e a incerteza poderia atingir essa fonte de capital.
- Inflação e recessão -
As medidas também teriam impacto no bolso dos mexicanos.
Segundo a Oxford Economics, as tarifas e a esperada retaliação mexicana enfraqueceriam a moeda local, elevando a inflação dos atuais 4,2% para 6% ao ano.
Se implementadas imediatamente, poderiam "empurrar o México a uma recessão técnica a partir do quarto trimestre de 2025", acrescenta a empresa.
Em 2023, as exportações do México para os Estados Unidos totalizaram US$ 490 bilhões (quase R$ 3 trilhões), enquanto suas importações chegaram a US$ 255 bilhões (R$ 1,5 trilhão), deixando-o com um superávit de US$ 234,7 bilhões (R$ 1,4 trilhão).
Com base nestes dados, Trump afirma que seu país está "subsidiado ao México". Mas a lógica comercial é mais complexa.
Boa parte dos produtos que os Estados Unidos compram são insumos que empresas mexicanas fabricam no México devido aos custos mais baixos de mão de obra e logística, o que torna o produto final mais barato para os americanos.
Ao taxar o seu maior fornecedor, o republicano tornaria seu próprio mercado mais caro. "Se você impõe tarifas ao país do qual você mais compra, tem um efeito inflacionário", explica Marroquín.
- "Moeda de troca" -
Para Kenneth Smith, ex-funcionário mexicano que liderou a renegociação técnica do T-MEC, o raciocínio de Trump ataca o livre comércio.
"Ele ameaça tomar medidas que podem até causar danos à sua própria economia, mas o faz com o objetivo de pressionar e obter concessões", disse ele à AFP.
Smith enfatiza que as tarifas são uma ferramenta para Trump obter resultados, seja na migração ou na segurança.
Portanto, a carta mais importante que o México possui é a forte dependência que Washington terá de Sheinbaum para conter a migração e o tráfico de drogas, diz Kimberley Sperrfechter, economista da Capital Economics.
"A cooperação nesta área poderia ser uma moeda de troca eficaz para evitar tarifas, como foi feito com sucesso em 2019" com o governo de Andrés Manuel López Obrador (2018-2024), acrescenta a especialista, autora do relatório.
A Oxford Economics ressalta que o México tem outras opções, como substituir as importações chinesas por produtos locais ou americanos para fortalecer o abastecimento da região da América do Norte, como Sheinbaum propôs recentemente, ou aliar-se a empresas do país vizinho para se opor às tarifas.
C.Stoecklin--VB