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Terremotos na Venezuela deixam quase 1.500 mortos; tempo está se esgotando para encontrar sobreviventes
Milhares de socorristas, familiares e voluntários escavam dia e noite entre montanhas de concreto em busca de sobreviventes dos terremotos ocorridos há quatro dias na Venezuela, que deixaram, até este domingo (28), quase 1.500 mortos e dezenas de milhares de desaparecidos.
A esperança de encontrar pessoas com vida sob quase 800 edifícios que desabaram diminui após o duplo terremoto que, na quarta-feira, às 18h06 no horário local, abalou este país mergulhado em uma profunda crise política e econômica.
Com magnitudes de 7,2 e 7,5 e registrados com apenas alguns segundos de diferença, os tremores foram dos mais fortes e devastadores já registrados na América Latina.
Mas, em meio à tragédia, surgiu uma boa notícia: um homem e seu filho adolescente foram resgatados neste domingo em La Guaira, a região mais atingida, localizada a 40 km de Caracas.
Visivelmente cansados e ainda em estado de choque, eles foram retirados de um amontoado de concreto e outros materiais por equipes de resgate francesas e americanas.
La Guaira parece uma zona de guerra. Dezenas de edifícios desabaram como castelos de cartas e se transformaram em montanhas de areia e escombros.
Com o apoio de brigadas internacionais, os trabalhos de resgate avançam, embora a população não esconda sua indignação com a lentidão e a insuficiência da ajuda do governo. Equipes de resgate com cães farejadores circulam entre as ruínas, enquanto helicópteros e aeronaves norte-americanas Osprey V-22 sobrevoam a região.
Um protesto de moradores obrigou neste domingo um grupo de militares a pegar picaretas e pás e participar da remoção dos escombros de um edifício desabado.
"O país precisa de vocês. Baixe sua arma, largue as balas", grita, indignado, um homem a um militar na região de Tanaguarena, em La Guaira, constataram jornalistas da AFP.
- "Sabemos que estão mortos" -
"Não temos o apoio para tirar nossos familiares, nós mesmos não conseguimos", disse Héctor Aguilera, de 60 anos, à AFP. Quatro de seus familiares ficaram soterrados sob um prédio que desabou. Foram recuperados dois corpos sem vida.
Sabemos que estão mortos, mas aqui estamos, esperando a resposta das autoridades", acrescentou. "Não temos esperanças, o que me restam são as lembranças".
O último balanço oficial é de 1.450 mortos, 20 a mais que no sábado (27), e 3.150 feridos. O governo evita falar de desaparecidos, um número que as Nações Unidas calcula em mais de 50 mil.
"Não acredito que haja chances de vida. Lamentável, mas essa é a realidade", disse José Miguel Escobar, de 63 anos, que ajuda na remoção dos escombros em um bairro da capital.
A presidente Delcy Rodríguez disse que 33 pessoas foram achadas com vida no sábado e publicou nas redes sociais o resgate de um menino de 11 anos.
Rodríguez governa a Venezuela de forma interina após a captura, em janeiro, de Nicolás Maduro durante uma incursão dos Estados Unidos.
- "Permissão para salvar vidas" -
La Guaira já havia sido devastada em 1999 por chuvas e deslizamentos que deixaram mais de 10 mil mortos.
Imagens aéreas realizadas pela AFP mostram o novo nível de destruição. Prédios transformados em um espécie de mil-folhas, e os que permaneceram de pé estão sem paredes, rachados, inabitáveis.
O chefe da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, um dos porta-vozes na crise, disse, ao apresentar o último balanço, que 189 edifícios sofreram um colapso total e que o total de imóveis afetados é de 774.
A ONU estima que os terremotos podem deixar quase sete milhões de afetados e danos materiais de 6,7 bilhões de dólares (cerca de 34,6 bilhões de reais), 6% do PIB do país petrolífero.
O governo militarizou La Guaira e impôs a exigência de uma permissão para que socorristas, médicos e voluntários possam acessar a região do desastre.
"Uma permissão para salvar vidas, imagina só", reclamou Carlos Itriago, socorrista de 27 anos.
Também tenta controlar a cobertura da imprensa internacional. A imprensa é levada de ônibus a determinadas áreas de La Guaira, segundo o governo, para evitar epidemias.
O papa Leão XIV expressou sua solidariedade com os venezuelanos e sua gratidão com os socorristas e voluntários durante uma mensagem em espanhol após a oração do Angelus.
As ofertas de ajuda se multiplicam, mas a AFP presenciou saques em La Guaira, e as denúncias de roubos continuam aumentando.
O aeroporto internacional que atende Caracas reabriu parcialmente no sábado e recebe, desde então, voos de carga com ajuda dos Estados Unidos, informou a repórteres uma autoridade americana de alto escalão, sob condição de anonimato.
Os Estados Unidos ofereceram 150 milhões de dólares (775 milhões de reais) e o envio de dois navios de guerra, aviões de transporte e helicópteros para apoiar a Venezuela.
A presidente informou que 24 países enviaram mais de 2.700 socorristas e 521 toneladas de ajuda humanitária, e afirmou que há 86 unidades estrangeiras com cães treinados para localizar sobreviventes sob os escombros.
A crise econômica na Venezuela afetou gravemente os hospitais e os serviços públicos. Milhões de venezuelanos se exilaram nos últimos anos.
Diante da indignação de muitos venezuelanos com a lentidão e a insuficiência da ajuda governamental nas operações de resgate, a líder da oposição, María Corina Machado, afirmou neste domingo à emissora americana Fox que estará de volta à Venezuela "muito em breve". "Chegou a hora, é meu dever estar ao lado do meu povo", declarou.
B.Wyler--VB