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Charles III encara visita delicada aos EUA após tensões entre Trump e Starmer
O rei Charles III parte na segunda-feira (27) para os Estados Unidos, onde o espera um exercício de equilíbrio diplomático, na esperança de apaziguar as tensões entre Donald Trump e Keir Starmer, tendo como pano de fundo o caso Epstein, especialmente doloroso para a família real britânica.
Oficialmente, o Palácio de Buckingham apresenta essa visita de quatro dias, organizada a pedido do governo britânico, como uma oportunidade de "celebrar os vínculos históricos" entre os dois países por ocasião do 250º aniversário da independência americana.
Mas raramente uma viagem real terá suscitado tanta controvérsia.
Embora Donald Trump, filho de uma escocesa e grande admirador da família real, tenha qualificado o monarca de "homem fantástico" na quinta-feira (23), à BBC, também multiplicou os ataques contra seus aliados britânicos desde o fim de fevereiro.
As críticas vieram quando Londres expressou suas primeiras reservas sobre os bombardeios de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã.
"Não é Winston Churchill quem temos diante de nós", disparou duramente o presidente americano em março, ao falar do primeiro-ministro trabalhista, Keir Starmer.
Trump atacou nos últimos meses o projeto britânico de entregar às Ilhas Maurício o arquipélago de Chagos, onde fica a base de Diego Garcia, usada pelas duas potências no Oceano Índico. Sob pressão americana, o Reino Unido suspendeu neste mês a devolução.
Por outro lado, o presidente republicano zombou do Exército britânico e minimizou sua contribuição para a coalizão internacional que combateu os talibãs no Afeganistão, o que irritou o governo de Londres.
Esses ataques levaram alguns parlamentares a pedir o adiamento da viagem. Posição compartilhada por 48% dos britânicos, segundo uma pesquisa.
- Discurso no Congresso -
Nesse contexto, Trump afirmou à BBC que a visita poderia "perfeitamente" reparar a "relação especial" entre os dois países.
E o rei poderá aproveitar o 250º aniversário da independência americana, celebrado no próximo 4 de julho, para tentar reduzir as tensões atuais.
Em um discurso na próxima terça-feira diante das duas Casas do Congresso americano - o primeiro de um monarca britânico desde o pronunciamento de Elizabeth II em 1991 -, Charles III poderá mencionar essas tensões, prevê Craig Prescott, especialista em monarquia da universidade londrina Royal Holloway.
"Ele é obrigado a mencioná-las. Imagino que fará isso de forma bastante codificada", afirma.
Embora tenha subido ao trono apenas em 2022, o rei, de 77 anos, que segue recebendo tratamento contra um câncer, é experiente nesse tipo de exercício diplomático e demonstrou ser "melhor orador" que sua mãe, Elizabeth II, segundo esse especialista.
- Epstein, tema tabu -
A outra grande nuvem pairando sobre essa viagem é o caso do falecido criminoso sexual americano Jeffrey Epstein e a amizade que ele mantinha com Andrew, irmão do rei.
Esse escândalo, que atinge a família real há mais de 15 anos, ganhou novos desdobramentos nos últimos meses, com a publicação de fotos e e-mails comprometedores para Andrew.
Charles III interveio recentemente retirando do irmão todos os títulos reais, incluindo o de príncipe.
O monarca também se comprometeu a deixar que "a Justiça siga seu curso" após a espetacular detenção de Andrew em fevereiro, suspeito de ter transmitido documentos confidenciais a Epstein.
Embora o ex-príncipe não tenha sido denunciado até agora e sempre tenha negado qualquer comportamento impróprio, ele segue sob investigação judicial.
Vários parlamentares americanos pediram, sem sucesso, que Andrew deponha no Congresso.
O congressista democrata Ro Khanna, muito ativo nesse tema, escreveu a Charles III pedindo que se reúna "em privado" com vítimas de Epstein. A família de Virginia Giuffre, principal acusadora do financista, que morreu em abril de 2025, fez pedido semelhante.
O Palácio de Buckingham rejeitou essa possibilidade, alegando que tal encontro poderia "prejudicar as investigações em curso ou o bom funcionamento da Justiça".
Um argumento "ridículo", rebateu Khanna em entrevista ao The Times, na qual avaliou que o rei "deveria ao menos mencionar as vítimas de Epstein em seu discurso" no Congresso e "reconhecer o trauma sofrido por essas jovens".
G.Haefliger--VB