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Veneza coroa trajetória do cineasta alemão Werner Herzog
Cineasta amante dos excessos - às vezes com filmagens dantescas - e da busca insaciável por imagens inéditas, o alemão Werner Herzog recebeu nesta quarta-feira (27) o Leão de Ouro por sua trajetória, no Festival de Veneza.
Coube a outro mestre da sétima arte, o diretor Francis Ford Coppola, entregar a Herzog o prêmio honorário, na cerimônia de abertura da 82ª edição do festival.
Coppola lembrou a relação de meio século que o une a Herzog e contou que foi graças a ele que o cineasta alemão conheceu sua atual mulher, Lena. Segundo comentou, em conversa ocorrida há décadas em San Francisco, ao falar sobre Herzog, ele disse: "Se Werner tem algum limite, não sei onde fica."
Ao subir ao palco, o cineasta alemão disse que estava emocionado e afirmou que não esperava a homenagem. "Eu queria ser um bom soldado do cinema, e isso significa perseverança, lealdade, coragem e senso de dever", assinalou, ao afirmar que sempre trabalhou para levar "algo transcendental" para as telas.
O diretor de "Aguirre, a Cólera dos Deuses" (1972), perigosamente rodado na selva peruana, ressuscitou o cinema alemão, juntamente com Volker Schlöndorff e Wim Wenders.
Durante mais de meio século, este cineasta excêntrico, ou meio louco, segundo alguns críticos, dirigiu cerca de 70 filmes entre ficções e documentários.
Ator, escritor e regente de ópera, Werner Herzog, um herdeiro do romantismo alemão, queria filmar os excessos da criação e o caos que habita o coração dos homens.
Ex-campeão de salto de esqui, viajou o mundo e às vezes arriscou a própria vida para explorar vulcões ("La Soufrière", 1977), desertos australianos ("Onde Sonham as Formigas Verdes", 1984), a Antártida ("Encontros no Fim do Mundo", indicado ao Oscar em 2007), o Himalaia ("Gasherbrum - A Montanha Luminosa", 1984) e, mais recentemente, a selva de Angola, onde seguiu uma manada misteriosa de elefantes ("Ghost elephants", apresentado em Veneza).
- Dupla insana -
Herzog mandou transportarem um barco de 300 toneladas montanha acima em "Fitzcarraldo", fez com que seus atores atuassem hipnotizados em "Coração de Cristal" (1976) ou cercados de ratos ("Nosferatu", 1978), e inclusive comeu os próprios sapatos - após tê-los fervido por cinco horas - por ter perdido uma aposta.
Porém, a mais intensa de suas aventuras continuará sendo sua relação com Klaus Kinski, um ator insano, de caráter explosivo, com quem fez cinco filmes.
Além de "Aguirre", trabalharam juntos em "Nosferatu", "Woyzeck" (1979), "Fitzcarraldo" (prêmio de Melhor Direção em Cannes em 1982) e "Cobra Verde" (1987).
"Nosso enfrentamento alcançava níveis insustentáveis, mas era produtivo na tela. Eu também poderia ter morrido por ele", declarou Werner Herzog no documentário "Meu melhor inimigo", dedicado à relação conturbada dos dois.
O cineasta chegou a querer assassiná-lo com "oito tiros" durante as filmagens de "Fitzcarraldo": "o crime teria sido perfeito. Dou graças a Deus, de joelhos, por tê-lo impossibilitado".
- Filho da guerra -
Werner Herzog nasceu em 5 de setembro de 1942, em Munique. Duas semanas depois, um bombardeio forçou sua família a se mudar para as montanhas da Baviera. Cresceu sem pai, desaparecido após ter sido feito prisioneiro de guerra, e na extrema pobreza.
Voltou a Munique aos 12 anos, com a convicção de que se tornaria cineasta algum dia: formou-se sozinho, com um pequeno manual de direção. Aos 15 anos, filmou seu primeiro curta-metragem com uma câmera roubada.
Seu primeiro longa, "Sinais de Vida" (1968), foi premiado com o Urso de Prata em Berlim. O filme, que conta a história de um soldado alemão que enlouquece ao vigiar um depósito de armas na Grécia, foi considerado pela crítica Lotte Eisner uma "renovação do cinema alemão".
Dois anos depois, lançou "Os Anões Também Começaram Pequenos", e em 1971, "O País do Silêncio e da Escuridão", sobre uma mulher surda e cega. Com "O Enigma de Kaspar Hauser", fez um retrato de um homem analfabeto que mal sabia falar, a quem conheceu em Nuremberg, agraciado com o Grande Prêmio de Cannes (1975). Dois anos depois, seguiu os passos de um doente mental em "Stroszek".
Após uma década com Klaus Kinski, iniciou uma segunda carreira nos Estados Unidos filmando documentários.
Em "O Homem Urso" (2005), estudou Timothy Treadwell, que passou 13 verões filmando ursos no Alasca até ser devorado. O cineasta continuou explorando o ser humano com um condenado à morte em "Ao Abismo - Um Conto de Morte, um Conto de Vida" (2011) e em "Encontrando Gorbachev" (2018).
Também colaborou com astros como Christian Bale em "O Sobrevivente" (2006), e Robert Pattinson e Nicole Kidman em "Rainha do Deserto" (2015).
O.Schlaepfer--VB