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Jovens talentos do cinema brasileiro chegam com força a Cannes
De mitos ancestrais a problemas trabalhistas, passando por um western com uma protagonista transgênero, quatro jovens cineastas brasileiros apresentaram seus curta-metragens em Cannes nesta quarta-feira (14).
Realizados em dupla com um diretor de outro país, estes filmes integram o programa Factory da Quinzena dos Cineastas, uma mostra paralela do festival.
Os filmes foram rodados no Ceará, auspiciados pelo conhecido diretor Karim Aïnouz, natural de Fortaleza e habitué da Croisette.
É precisamente no porto gigantesco da capital cearense que é ambientado "Ponto cego", que conta a história de Marta, uma engenheira encarregada das câmeras de segurança das instalações portuárias.
Luciana Vieira, originária desta região, e o cubano Marcel Beltrán são os diretores deste curta-metragem que mostra um entorno onde as mulheres mal podem se queixar.
"É um desafio porque quando dirigimos juntos, temos que entrar em acordo sobre tudo, o filme, a estética, o elenco... Dirigir é tomar decisões, por isso tínhamos que estar muito unidos, conversar muito" para chegar a um terreno comum, explicou ela sobre a apresentação dos curtas e o trabalho em dupla com outro cineasta.
Stella Carneiro, de Alagoas, e o português Ary Zara também partiram de posições diferentes, mas em seguida se conectaram.
Seu curta, "A vaqueira, a dançarina e o porco", é um western no qual uma "cow-girl" transgênero visita sua namorada.
"Sinto que compartilhamos os mesmos valores", disse Carneiro. "Para nós, era muito importante trazer desde o princípio como protagonistas personagens que normalmente não são vistos neste gênero tão tradicional".
- Destaque para o norte e o nordeste -
Em "Como ler o vento", Bernardo Ale Abinader, do Amazonas, e a franco-egípcia Sharon Hakim se concentram na preservação dos conhecimentos ancestrais, ao contarem em seu filme como uma curandeira tradicional ensina suas técnicas à sua discípula.
O quarto curta-metragem, "A fera do mangue", de Wara, com origens aimarás, e a israelense Noam Shimon, também se aprofunda nas tradições para contar, em tom mitológico, a história de uma mulher que se alimenta da força dos manguezais para enfrentar um agressor.
Os quatro filmes são protagonizados por mulheres e, embora pareça que seus autores combinaram para convergir neste ponto, os jovens cineastas asseguram que se deram conta desta coincidência depois, quando os projetos já haviam sido lançados.
O denominador comum entre as obras é ter como ponto de partida a região do Ceará, tradicionalmente desfavorecida.
O último filme de Aïnouz, "Motel Destino", que disputou a Palma de Ouro no ano passado, já tinha sido rodado nesta região.
E a intenção é seguir promovendo-a no setor cinematográfico.
"Esta foi uma edição muito especial que fizemos em nível regional, pois foi um projeto apoiado pelo estado do Ceará. Eles tomaram esta decisão importante de destacar a região do nordeste e o norte do Brasil", disse Janaína Bernarder, produtora e uma das impulsionadoras do intercâmbio.
Esta edição do Factory, um programa que há dez anos convida um país (Finlândia, Chile, Dinamarca...) para fazer este tipo de colaboração, também se enquadra na comemoração dos 200 anos das relações diplomáticas entre Brasil e França.
E.Gasser--VB