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O 'Janonismo' chega à Europa: como a estratégia digital de Lula se espalha pela esquerda global
A estratégia de campanha digital conhecida como 'Janonismo', fundamental para a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, está a transpor fronteiras. A esquerda europeia e latino-americana, incluindo movimentos em França, Espanha, Argentina e Portugal, começa a replicar as táticas de mobilização via redes sociais que revolucionaram o processo eleitoral brasileiro.
A estratégia de comunicação política desenvolvida pelo deputado federal brasileiro André Janones, decisiva para a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em outubro passado, está a ser identificada como um modelo replicável por movimentos de esquerda em diversos países. O fenómeno, baptizado pela imprensa e analistas como "Janonismo", transcende as fronteiras do Brasil e começa a influenciar o ativismo digital na Europa e na América Latina.
A reeleição de Lula, que venceu o seu adversário Flávio Bolsonaro na segunda volta após ter ficado atrás no primeiro turno, foi amplamente atribuída à eficácia do "Exército de Lula", um grupo de WhatsApp criado por Janones em abril. Em apenas três semanas, a iniciativa reuniu mais de 10 milhões de participantes, transformando seguidores passivos em distribuidores ativos de mensagens e coordenando ações de pressão online.
Agora, analistas políticos e especialistas em marketing digital observam que as táticas de Janones estão a ser importadas por partidos e movimentos na França, Espanha, Argentina e Portugal. A transição deste método para o continente europeu marca uma mudança significativa na forma como a esquerda organiza a militância no século XXI.
Em França, o movimento "L’équipe de Mélenchon officielle", ligado ao líder da esquerda Jean-Luc Mélenchon e à formação La France insoumise (França Insubmissa), registou um crescimento exponencial. Segundo dados referidos por analistas, o canal passou de 57 mil para 147 mil participantes, um aumento de 157,89%. Na Espanha, o canal "La Fuerza de La Gente", associado ao primeiro-ministro Pedro Sánchez e ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), cresceu 68%, saltando de 25 mil para 42 mil membros.
Na América Latina, a influência é igualmente visível. Na Argentina, o "Ejército del Peronismo", ligado à ala jovem e mais à esquerda do peronismo, principal força de oposição ao presidente Javier Milei, aumentou o seu número de integrantes em 46,34%, passando de 41 mil para 60 mil. André Janones tem estado presente na região, participando em reuniões com a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, consolidando laços entre os movimentos.
Em Portugal, a adaptação do modelo está a ocorrer, embora com características próprias. O deputado do Bloco de Esquerda Fabian Figueiredo adotou uma abordagem similar através do Instagram, apelando aos seus seguidores para que partilhassem o canal com outras cinco pessoas. Até ao momento, 394 indivíduos afirmaram ter cumprido esta tarefa, demonstrando a capacidade de viralização mesmo em escalas menores.
Edson Athayde, publicitário e especialista em marketing político que ajudou na campanha de António Guterres em 1995, descreve o fenómeno como uma evolução natural da militância. "É uma forma nova de organizar uma coisa antiga: a militância", afirma. Athayde explica que, enquanto os partidos tradicionais entregavam panfletos, hoje criam vídeos, partilham argumentos e lançam tarefas pelo telemóvel. O "Exército do Lula" funciona como um centro de distribuição e mobilização onde cada pessoa é convidada a agir, utilizando as ferramentas das grandes tecnológicas contra elas mesmas.
André Santos Pereira, analista político, destaca que a novidade não reside na plataforma em si, mas na capacidade de organizar comunidades para transformar seguidores em distribuidores de mensagem. "Aquilo que nós vemos agora é a transição deste método para a Europa", nota. Santos Pereira lembra ainda que o próprio Janones já tinha testado este modelo em 2022, criando um grupo no Telegram com aproximadamente 110 mil pessoas.
O impacto do digital na política portuguesa é evidente. Edson Athayde observa que os partidos portugueses utilizam as redes sociais para divulgar propostas e promover candidatos, mas ainda sem a dimensão de mobilização ativa vista no Brasil. A campanha passa do palco para o telemóvel e regressa à rua: um vídeo anuncia uma iniciativa, que produz novos vídeos, alimentando a conversa.
Santos Pereira aponta para um crescimento significativo na comunicação digital, especialmente no partido Chega e com o seu líder André Ventura. O Chega conta com 337 mil seguidores no Instagram e 498 mil no Facebook, enquanto Ventura tem 940 mil seguidores na rede de fotos. Outros partidos também reforçaram a sua presença: o PSD tem 61 mil seguidores no Instagram e 184 mil no Facebook; o Partido Socialista (PS) tem 57,1 mil no Instagram e 134 mil no Facebook; o PCP tem 55 mil no Instagram e 66 mil no Facebook; o BE tem 123 mil no Instagram e 41 mil no Facebook; e o Livre tem 99,6 mil no Instagram e 51 mil no Facebook.
Um estudo do Observatório Europeu de media digital indica que, entre as legislativas de 2024 e 2025, houve um aumento de 20% nos seguidores dos principais partidos e de 55% nos perfis dos candidatos. A política digital tornou-se parte do quotidiano, com a performance política a integrar a dimensão digital através de vídeos, recortes e mensagens curtas editáveis.
A presença de profissionais de comunicação digital nos gabinetes de ministros e secretários de Estado é cada vez mais comum, como no caso do presidente da câmara de Oeiras, Isaltino Morais. Athayde explica que os partidos recorrem às redes porque é onde encontram parte importante do público, incluindo pessoas que não frequentam comícios ou leem programas eleitorais. Uma publicação pode chegar ao eleitor enquanto este procura uma receita de bacalhau.
Santos Pereira sublinha que a política digital permite criar diferenciação entre públicos e contornar o escrutínio jornalístico tradicional. "Não existe o jornalista intermediário que faz o fact checking adicional", afirma. Esta falta de filtro permite que partidos e candidatos comuniquem da maneira que desejam, sem estar limitados a agendas ou ao espaço mediático convencional, remodelando a imagem do candidato através da cadência e apresentação.
No entanto, os riscos são significativos. Athayde alerta para a desinformação, assédio, exposição de dados pessoais e a pressão para simplificar assuntos complexos até perderem parte essencial. Santos Pereira concorda, citando o exemplo do Brasil, onde a agência de verificação Lupa identificou pelo menos oito conteúdos enganosos nas mensagens de Flávio Bolsonaro entre 247 analisadas.
"Quando a mensagem perde um nível de escrutínio que nós esperamos encontrar na resposta de um jornalista, a disseminação de mensagens menos precisas aumenta", explica Santos Pereira. Apesar dos riscos, o aumento dos canais de expressão permite que políticos sem grande representatividade eleitoral, como Rui Tavares ou os partidos Iniciativa Liberal e Livre, ganhem tração nas redes sociais, consolidando o "Janonismo" como um modelo global de campanha política.
H.Gerber--VB