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Avalanche de migrantes paralisa vida cotidiana em Ceuta
As lojas permaneciam fechadas nesta sexta-feira (31) no enclave espanhol de Ceuta, onde era difícil encontrar onde comprar pão e a população ficou sem as festas anuais devido à chegada em massa de migrantes vindos do Marrocos.
A Calle Real, principal artéria comercial da cidade, exibia suas vitrines fechadas, e o habitual movimento de compradores e moradores havia sido substituído por dezenas de migrantes que circulavam pelas ruas.
No centro de Ceuta, onde vivem cerca de 84 mil pessoas, a maioria dos estabelecimentos permanecia fechada, e apenas as farmácias e uma unidade da rede espanhola de restaurantes VIPS continuavam abertas nesta sexta-feira.
"Estamos sem pão. Hoje não houve pão fresco porque as padarias estavam fechadas", contou Miguel Ángel Campaña, gari da prefeitura de Ceuta, à AFP.
Campaña afirmou que os moradores temiam que os migrantes tentassem entrar nas casas "pedindo água e outras coisas" e pediu aos habitantes que tivessem "cuidado com as varandas".
Alguns migrantes paravam carros na estrada para pedir comida, dinheiro ou usar um telefone celular para ligar para suas famílias, informaram jornalistas da AFP.
A Confederação de Empresários de Ceuta recomendou que as lojas e outros estabelecimentos comerciais permanecessem fechados "até que a segurança seja garantida".
Cerca de 60 mil migrantes cruzaram para o território vindos do Marrocos, segundo as autoridades locais. Muitos contornaram a nado o quebra-mar, uma pequena barreira de fronteira que avança sobre o Mar Mediterrâneo.
Jornalistas da AFP viram centenas de pessoas — homens, mulheres e crianças — entrando em Ceuta e se desfazendo de boias e das roupas que usaram durante a travessia.
Essa chegada em massa constitui uma das maiores entradas de migrantes já registradas em Ceuta e provocou uma crise internacional para Madri, gerando críticas da Alemanha, da Itália e da Finlândia.
A Espanha mobilizou tropas para controlar a segurança e afirma que mais de 48 mil dos migrantes que haviam cruzado anteriormente já retornaram ao Marrocos.
No centro de Ceuta, a polícia conduzia e direcionava os migrantes, muitos deles jovens, para a fronteira, em alguns casos ameaçando-os com cassetetes.
– "Como na pandemia" –
Mohamed, um taxista que mora em Ceuta, explicou que acreditava que muitos dos migrantes estavam decidindo voltar ao Marrocos porque esperavam encontrar melhores condições no enclave espanhol.
"Eles achavam que já sabiam o que encontrariam aqui e deram de cara com a realidade", comentou à AFP, acrescentando que alguns migrantes lhe disseram que "estavam voltando porque não tinham comida".
"Aqui não há nada. Aqui, nós que somos daqui, estamos tendo muita dificuldade para sobreviver", afirmou.
Mohamed disse que ele e seus vizinhos permaneceram acordados até altas horas da madrugada para se proteger de possíveis furtos cometidos por migrantes. "Tenho sobrinhas que estão com medo", acrescentou.
Yolanda Moreno, de 56 anos e desempregada, afirmou ter sentido "medo desde o início" da crise migratória.
"A sensação era como na pandemia: era melhor ficar dentro de casa do que sair", recordou.
O governo regional de Ceuta cancelou as festas da padroeira da cidade, que deveriam começar no sábado, devido à "situação excepcional" vivida pelo território.
No parque de diversões, os carrinhos de bate-bate e outras atrações permaneciam cobertos por lonas.
T.Suter--VB