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Em visita a Camarões, papa denuncia 'tiranos' que 'devastam' o mundo
O papa Leão XIV denunciou nesta quinta-feira (16), em Camarões, que "um punhado de tiranos" está "devastando" o mundo e fez um apelo à paz em uma das regiões mais violentas do país.
Desde o início de sua viagem de 11 dias por quatro países do continente africano, o pontífice americano abandonou sua habitual posição reservada e reiterou seus apelos pela paz, apesar das duras críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra ele.
"Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para seu próprio benefício militar, econômico e político", disse o papa depois que o vice-presidente dos EUA, JD Vance, o criticou e pediu que tivesse "cuidado" ao abordar questões de teologia.
"O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas é mantido unido por uma multidão de irmãos e irmãs solidários", advertiu o pontífice, em um discurso em Bamenda, centro da violência no noroeste de Camarões, que já deixou milhares de mortos em quase uma década.
Estas declarações reforçam a oposição, explícita nos últimos dias, entre o papa nascido em Chicago e o presidente americano, que o qualificou de "fraco" e "nulo em política externa".
Ao chegar à Catedral de Bamenda em um papamóvel com vidros blindados e sob escolta militar, Leão XIV abençoou uma multidão agitada, entre cânticos, bandeiras de Camarões e do Vaticano e faixas com a sua imagem.
Ao sair, soltaram-se pombas, símbolo da paz que o líder religioso desejou para esta "terra ensanguentada, mas fértil".
"Aqueles que roubam os recursos de sua terra geralmente investem grande parte do lucro em armas, perpetuando assim um ciclo interminável de desestabilização e morte", lamentou.
- "Exploração e saques" -
Denunciou "o mal causado a partir do exterior, por aqueles que, em nome do lucro, continuam apoderando-se do continente africano para explorá-lo e saqueá-lo".
Camarões possui abundantes recursos como petróleo, madeiras preciosas, cacau, café e algodão, mas também vastos jazigos minerais que há décadas atraem grupos estrangeiros e elites locais.
Na quarta-feira, perante o presidente de Camarões, Paul Biya, que dirige o país com mão de ferro desde 1982, Leão XIV pediu para que se "quebrem as correntes da corrupção".
Bamenda é o epicentro do conflito que, desde 2016, opõe os independentistas da minoria anglófona do país ao governo de Iaundé. Tanto separatistas como forças de segurança foram acusados de cometer atrocidades.
Os civis se tornaram alvo de extorsões, violência, sequestros e assassinatos. E pelo menos 6.000 pessoas morreram desde 2016, segundo a ONU.
Vivian Ndey, uma professora de 60 anos de Bamenda, recebeu o papa com uma "planta da paz", símbolo de esperança. "Dei aulas durante este período de crise e não tem sido fácil. Não havia alunos, os professores tinham medo de vir às aulas", explicou à AFP.
Neste país da África Central, onde cerca de 37% dos seus quase 30 milhões de habitantes são católicos, a Igreja desempenha um papel de mediação e administra uma extensa rede de hospitais, escolas e obras de caridade.
Antes de Camarões, o líder espiritual realizou uma visita histórica à Argélia.
O pontífice continuará sua viagem pelo continente africano em Angola e na Guiné Equatorial até 23 de abril.
L.Maurer--VB