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Lula abre a via para adiamento da assinatura do acordo UE-Mercosul
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a via, nesta quinta-feira (18), para que a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul seja adiada para janeiro, em meio aos protestos de milhares de agricultores em Bruxelas.
O texto é negociado há 25 anos e criaria a maior zona de livre comércio do mundo. Nesta quinta-feira, os líderes europeus debatiam em Bruxelas se vão apoiá-lo.
Com esse acordo, os europeus poderiam exportar produtos como veículos e maquinário aos países do Mercosul: Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
Em troca, facilitariam a entrada nos países do bloco de carne, arroz, mel e soja sul-americanos, considerados mais competitivos devido a suas normas de produção; o que os agricultores europeus veem com temor.
O presidente Lula prestou contas de uma conversa por telefone com a chefe do governo italiano, a primeira-ministra Giorgia Meloni.
Segundo ele, Meloni lhe pediu "paciência de uma semana, de dez dias, do próximo mês" e lhe assegurou que se assim for, a Itália "estará junto com o acordo". Lula disse que vai transmitir o pedido aos outros líderes latino-americanos do Mercosul para decidirem o que fazer.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, esperava assinar o tratado no próximo sábado durante uma cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu (PR). Mas para isso, precisa do aval de uma maioria qualificada dos Estados-membros da UE reunidos em Bruxelas.
Agora, tudo parece apontar para um adiamento, o que daria um breve respiro para a França, que não para de reforçar que o acordo não é aceitável em seu formato atual.
Um prazo adicional representaria um revés para a Comissão Europeia, para a Alemanha, a Espanha e os países nórdicos, que queriam que o acordo fosse assinado nos próximos dias. Para eles, o tratado ajudaria a impulsionar as exportações em um contexto de forte concorrência chinesa e de um governo americano propenso a adotar tarifas aduaneiras.
"Seria muito frustrante que a Europa não alcançasse um acordo com o Mercosul", disse o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, ao chegar ao Conselho Europeu.
Ao contrário, França, Itália, Polônia e Hungria estavam dispostas a formar uma minoria de bloqueio em oposição ao tratado.
"Consideramos que as contas não fecham e que este acordo não pode ser assinado", disse a jornalistas antes da cúpula o presidente francês, Emmanuel Macron.
- Agricultores revoltados -
Nesta quinta-feira, em Bruxelas, à margem da cúpula de chefes de Estado e de governo da UE, milhares de agricultores manifestaram sua revolta.
Os protestos deixaram um panorama de pneus incendiados, batatas e projéteis arremessados, jatos d'água e bombas de gás lacrimogêneo lançados pela polícia. A situação ficou especialmente tensa nas imediações das instituições europeias, protegidas por um importante dispositivo policial.
Segundo a polícia bruxelense, 7.300 pessoas com cerca de 50 tratores participaram do protesto autorizado, durante o qual praticamente não houve tumulto.
Mas outros 950 tratores chegaram ao bairro europeu, bloqueando várias ruas.
Os agricultores protestavam contra vários temas, não só contra o acordo UE-Mercosul, mas também contra as taxas sobre os fertilizantes ou a reforma da política agrícola comum (PAC) da UE, explicaram vários participantes à AFP.
Florence Pellissier, uma agricultora francesa, denunciou a "concorrência desleal" de produtos importados tratados com substâncias proibidas na Europa.
"Estamos aqui para dizer não ao Mercosul", declarou à AFP o pecuarista belga Maxime Mabille. "É como se a Europa tivesse se tornado uma ditadura", acrescentou, ao acusar a presidente da Comissão Europeia de tentar "impor o acordo à força".
A Copa-Cogeca reivindicou 10.000 manifestantes procedentes de vários países, sobretudo da França.
"Nosso fim = sua fome", dizia um cartaz sobre um caixão preto.
Muitos agricultores europeus acusam os países do Mercosul de não acatarem as normas ambientais e sociais que eles são obrigados a cumprir, o que permitiria vender seus produtos mais baratos.
A estas preocupações se soma às da reforma de subvenções da PAC, que a Comissão Europeia busca, segundo eles, "diluir" no orçamento europeu.
P.Staeheli--VB