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Pescadores de Trinidad e Tobago condenam ataques dos EUA no Caribe
"Estamos no Afeganistão? (...) Aqui estamos no Caribe", diz com indignação um pescador de Trinidad e Tobago, após a suposta morte de dois colegas em um ataque dos Estados Unidos contra um embarcação que, segundo Washington, transportava drogas da Venezuela.
A comunidade de Las Cuevas, no norte do arquipélago, ficou em choque na quinta-feira após receber informações de conhecidos na Venezuela que indicavam que dois de seus compatriotas estavam na última embarcação atacada pelos EUA. A polícia de Trinidad e Tobago iniciou uma investigação.
Os Estados Unidos anunciaram em agosto uma operação contra o narcotráfico com navios de guerra em águas internacionais do Caribe, perto da Venezuela, pouco depois de acusar o presidente Nicolás Maduro de liderar um cartel de drogas. Caracas nega as acusações e denuncia uma "ameaça" para uma "mudança de regime".
Pelo menos cinco embarcações foram bombardeadas desde então, com um saldo de 27 mortos, segundo Washington.
Seis pessoas morreram no último ataque, de acordo com o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na terça-feira. A AFP não conseguiu verificar estes números de forma independente.
Várias pessoas de Las Cuevas afirmam ter sido avisadas de que Chad Joseph e Rishi Samaroo estavam a bordo da última embarcação atacada. "Estamos em Israel? Estamos no Afeganistão? Em algum desses lugares ou o quê? Aqui estamos no Caribe, amigo. Aqui há paz e amor", disse o pescador que recusou se identificar.
A situação é tensa em Las Cuevas, um vilarejo de pescadores com cerca de 150 casas, em meio a uma baía paradisíaca de águas cristalinas e vegetação selvagem, a cerca de uma hora de carro da capital Porto da Espanha.
- "A lei do mar" -
Segundo o especialista em segurança de Trinidad e Tobago, Garvin Heerah, o arquipélago é um ponto de trânsito de drogas.
"O país é mais do que uma simples escala. Funciona como um centro de transbordo onde se recebem, armazenam, reempacotam e preparam carregamentos a granel para um movimento posterior", explicou à AFP.
"De Trinidad, os entorpecentes circulam para o norte em direção aos Estados Unidos, para o leste, em direção à Europa e África Ocidental, assim como por todo o Caribe. Trinidad e Tobago serve como base em uma cadeia de tráfico mais ampla e bem estruturada", acrescenta Heerah, ressaltando a preferência por lanchas rápidas.
Trump afirmou na quarta-feira que o tráfico de drogas marítimo está "sob controle" e anunciou que considera atacar em terra os cartéis da Venezuela. Também disse que autorizou a CIA a atuar contra o país caribenho.
Familiares dos supostos falecidos também refutam as acusações de narcotráfico. Lynette Burnley, tia de Chad Joseph, defende que seu sobrinho era pescador "desde pequeno" e tinha uma personalidade "encantadora" e "simples".
"Foi para a Venezuela e nunca voltou devido a todo tipo de problemas com o barco. (...) Ele ajudava as pessoas, limpava terrenos, trabalhava a terra. Todo tipo de pequenos trabalhos para permitir que vivessem lá", afirma.
Os habitantes de Las Cuevas também consideram um sequestro e asseguram que os dois homens foram sequestrados quando voltavam para casa e o barco foi atacado.
A mãe de Joseph disse à AFP na quarta-feira que seu filho esteve na Venezuela por três meses e lamentou as acusações de narcotráfico.
"Não tenho nada a dizer (a Trump). A lei do mar é que, se você vê um barco, deve parar o barco e interceptá-lo, não apenas explodi-lo", afirmou Lenore Burnley.
K.Hofmann--VB