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Israel se irrita com abstenção dos EUA em votação na ONU sobre cessar-fogo em Gaza
Israel reagiu, nesta segunda-feira (25), furiosamente à abstenção dos Estados Unidos que permitiu, pela primeira vez, aprovar no Conselho de Segurança uma resolução que pede um "cessar-fogo imediato" entre Israel e Hamas, após quase seis meses de guerra em Gaza, ameaçada pela fome.
Como resposta, Israel cancelou a visita de uma delegação que viajaria a Washington e alegou que a abstenção de seu principal aliado prejudica sua ofensiva contra o Hamas e os esforços para libertar os reféns nas mãos do movimento islamista.
"Trata-se de um claro retrocesso em comparação com a posição constante dos Estados Unidos no Conselho de Segurança desde o início da guerra", ressaltou um comunicado do gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Apresentada por membros não permanentes do Conselho, a resolução foi aprovada pelos 14 membros restantes.
Até agora, os Estados Unidos, aliados históricos de Israel, opunham-se sistematicamente ao termo "cessar-fogo" nas resoluções da ONU e bloquearam três textos desse tipo.
No entanto, nas últimas semanas, Washington mudou de tom e na semana passada propôs um projeto de resolução que apontava a "necessidade" de um cessar-fogo, mas o texto foi vetado por Rússia e China.
O Hamas, que governa a Faixa de Gaza, celebrou a aprovação da resolução desta segunda e expressou sua "vontade de iniciar um processo de troca" de reféns por presos palestinos detidos em Israel.
A resolução, também comemorada pela Autoridade Palestina, que administra parcialmente a Cisjordânia ocupada, "exige um cessar-fogo imediato para o mês do ramadã" que leve a uma trégua duradoura e "exige a libertação imediata e incondicional de todos os reféns".
A Casa Branca, por sua vez, afirmou que a abstenção dos Estados Unidos não representa uma "mudança de rumo".
A embaixadora dos Estados Unidos na ONU disse que a trégua em Gaza poderia começar "com a libertação de um primeiro refém".
A França, por outro lado, pediu na ONU um "cessar-fogo permanente".
- 'Seu descumprimento será imperdoável' -
De Washington, o ministro da Defesa israelense Yoav Gallant indicou que Israel não vai pôr fim à guerra até que o Hamas liberte os reféns.
"Não temos o direito moral de parar a guerra enquanto houver reféns em Gaza", declarou Gallant antes de se reunir com o assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, e o secretário de Estado americano, Antony Blinken.
"Esta resolução deve ser aplicada. Seu descumprimento será imperdoável", disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, na rede social X.
A guerra teve início em 7 de outubro após um ataque do Hamas em Israel, que deixou 1.160 mortos, a maioria civis, segundo um balanço da AFP baseado em dados israelenses.
Os combatentes islamistas também sequestraram cerca de 250 pessoas, das quais Israel acredita que 130 sigam em Gaza, incluindo 33 que teriam morrido.
Em retaliação, Israel lançou uma ofensiva que já matou 32.333 pessoas, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza.
Só nas últimas 24 horas, 107 pessoas morreram em Gaza por bombardeios israelenses, segundo a mesma fonte.
- Combates nos arredores de hospitais -
O Exército israelense está realizando operações ao redor de dois grandes hospitais em Gaza, Al Shifa e Al Amal, onde afirma que existem bases escondidas do grupo islamista.
O Exército informou que matou mais de 20 combatentes palestinos no domingo perto de Al Amal e que segue com suas operações "de precisão" no Al Shifa, onde, até agora, foram detidos cerca de "500 terroristas" e outros 170 morreram.
Segundo as autoridades do Hamas, o Exército israelense utilizou explosivos para destruir cerca de 20 casas e um prédio no bairro de Al Rimal, perto de Al Shifa, onde testemunhas relataram combates nesta segunda.
Centenas de civis fugiram da área durante a última semana.
- 'Não há comida' -
A escassez aguda de alimentos e de água aumenta o sofrimento dos civis em Gaza.
"Nem sequer temos comida que nos dê a energia necessária para ir pegar água", lamentou Bassam Mohammed al Hau na cidade de Jabaliya, no norte da Faixa.
Em um documento publicado nesta segunda, a relatora especial da ONU sobre os direitos humanos nos territórios palestinos disse que "existem motivos razoáveis" para afirmar que Israel comete "atos de genocídio em Gaza" e menciona o risco de uma "limpeza étnica".
O Hamas disse este mês que estava disposto a aceitar uma trégua de seis semanas, acompanhada da libertação de reféns em troca de prisioneiros palestinos.
A viagem da delegação israelense a Washington tinha como objetivo abrir consultas sobre o plano de Israel de lançar uma ofensiva contra Rafah, cidade no sul de Gaza onde se concentra uma enorme quantidade de refugiados palestinos, o que preocupa a comunidade internacional.
Os Estados Unidos, "decepcionados" com o cancelamento da visita, indicaram que vão buscar uma forma de alertar Israel contra um ataque a Rafah.
"Acreditamos que esse tipo de invasão em grande escala seria um erro", disse à imprensa o porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller.
burs-jm/fz/jm/jsa/meb/js/ic/rpr
A.Zbinden--VB