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'Pior que o inferno', dizem habitantes de Gaza sobre ofensiva israelense contra hospital
Centenas de homens presos, mulheres obrigadas a se deslocar para o sul, e nas ruas, cadáveres: os moradores dos arredores do hospital Al Shifa, onde o exército israelense enfrenta os milicianos do Hamas, na Faixa de Gaza, descrevem "o inferno" em que a área se transformou.
"Durante toda a noite houve tiroteios e bombardeios de artilharia. Pela manhã (na sexta-feira), saí para buscar água na casa do meu vizinho. Havia muitos cadáveres na rua, os tanques bloqueavam os acessos ao hospital, vi um incêndio em uma residência, casas destruídas", listou Mohamed, um homem de 59 anos que não quis informar o sobrenome.
Ele mora no campo de refugiados vizinho do Al Shati e conta que os bairros ao redor do complexo hospitalar "são cidades fantasmas".
"O exército vai de casa em casa e prende todos os homens, e até mesmo crianças. Todos têm medo de serem executados ou presos", relata. Para ele, "o que está acontecendo é vingança e aniquilação. Tenho a impressão de que Gaza se tornou algo pior que as chamas do inferno".
O Exército israelense lançou a operação na segunda-feira (18), e afirma agir de forma "precisa no hospital Al Shifa, evitando causar danos aos civis, pacientes, médicos e ao equipamento de saúde".
Na operação, foram enviados dezenas de tanques e veículos blindados, com base em "informações que indicavam que o hospital está sendo utilizado por terroristas de alto escalão do Hamas", disse o Exército.
Eles afirmam ter eliminado, desde segunda-feira, "mais de 150 terroristas na área do hospital", prendido "centenas de suspeitos" e localizado "armas e infraestruturas terroristas", no sexto mês da guerra desencadeada pelo ataque surpresa do Hamas em Israel, em 7 de outubro.
Segundo fontes militares e também testemunhas, houve combates entre soldados israelenses e milicianos islamistas palestinos do Hamas.
O Ministério da Saúde do governo do Hamas em Gaza afirma que vários prédios do hospital foram danificados. Eles também relataram prisões entre a equipe médica.
Um enfermeiro, que não quis se identificar, contou a um repórter da AFP que os bombardeios noturnos "danificaram todos os prédios", especialmente uma área de cirurgia.
Civis deslocados se refugiaram no hospital há algumas semanas, mas agora "não há comida nem água suficientes", afirma esse enfermeiro.
- Sem roupas -
Antes de sua operação, o exército de Israel lançou folhetos pedindo à população que evacuasse a área. Um repórter da AFP viu centenas de pessoas fugindo.
Quatro dias depois, na sexta-feira, "ao amanhecer, as forças de ocupação invadiram todas as casas e prédios residenciais nos arredores do bairro de Al Katiba", conta Mahmud Abu Amra, de 50 anos.
Segundo ele, os militares israelenses "retiraram os vizinhos de suas casas e obrigaram os homens com mais de 16 anos a se despirem completamente, com exceção das roupas íntimas. Eles foram amarrados, espancados com as coronhas dos fuzis, insultados e depois levados para uma escola próxima do hospital para interrogatório e prisão".
Ao mesmo tempo, as mulheres e as crianças "foram obrigadas a irem para o oeste e a costa, em direção ao sul da Faixa de Gaza", acrescentou.
Em declaração à AFP, o Exército israelense indicou que os indivíduos detidos, e sem relações com atividades "terroristas", são libertados. "Os indivíduos presos são tratados de acordo com o direito internacional".
Acrescentou que, "frequentemente, é necessário que pessoas suspeitas de terrorismo entreguem suas roupas para serem examinadas e garantir que não estejam escondendo um colete explosivo ou qualquer outra arma (...) As roupas são devolvidas aos detidos assim que possível".
O ataque surpresa do Hamas no sul de Israel em 7 de outubro passado causou 1.160 mortes, a maioria civis, segundo um balanço da AFP com base em dados oficiais.
As retaliações israelenses em Gaza, submetida a ofensivas desde o início do conflito, já causaram 32.142 mortes, a maioria civis, segundo o ministério da Saúde do Hamas.
D.Schlegel--VB