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Água, fator de paz e prosperidade quando a distribuição é justa, segundo a ONU
Garantir a todos os países "um abastecimento de água seguro e equitativo" é "indispensável" para promover a sua prosperidade e, por extensão, a paz, destaca o relatório anual sobre a água publicado nesta sexta-feira (22) pela Unesco e pela ONU-Água.
Estabelecer um vínculo direto entre água e prosperidade é "um pouco empírico", especialmente quando alguns países com pouco ouro azul são prósperos, reconhece Richard Connor, principal redator do relatório publicado por ocasião do Dia Mundial da Água.
Pelo contrário, "sem acesso à água potável, as pessoas ficam expostas a doenças que as impedem de ir à escola, de trabalhar, de serem produtivas. O vínculo aqui é bastante claro", acrescenta.
"Sem água não temos segurança alimentar, produção agrícola, indústria", explica à AFP, após a apresentação do relatório na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em Paris.
Nos países em desenvolvimento, até 80% dos empregos - concentrados na agricultura e nas indústrias com uso intensivo de água - estão vinculados a este recurso, ameaçado pela mudança climática.
No mundo, 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável e 3,5 bilhões não têm serviços de saneamento seguros.
Se a água e a prosperidade estão vinculadas, a prosperidade e a paz também parecem andar de mãos dadas. "Parece lógico que aqueles que têm a sorte de viver com prosperidade sejam menos propensos a lutar uns com os outros", observa Connor.
- Cooperações -
Pelo contrário, "as desigualdades na distribuição dos recursos hídricos, no acesso aos serviços de abastecimento e saneamento" são fonte de tensões que podem, por sua vez, "exacerbar a insegurança hídrica", aponta o relatório.
Embora nos anos 1980-1990 se previsse que o século XXI seria o das "guerras pela água", Connor estima que neste momento esta "tem sido, na maior parte do tempo, vítima da guerra, mas geralmente não é a sua causa".
No entanto, este recurso está na origem de inúmeras crises, por vezes acompanhadas de surtos de violência. Nos últimos anos, dezenas de pessoas morreram em disputas entre o Quirguistão e o Tadjiquistão por terras e acesso à água, por exemplo.
Para evitar estas tragédias, a ONU defende uma maior cooperação internacional que está gerando "resultados positivos".
Neste sentido, usa como exemplo a gestão ecológica da região de Trifinio, entre El Salvador, Guatemala e Honduras, que permitiu a "redução da pobreza" e o "desenvolvimento econômico".
Mas dos 153 países que compartilham rios, lagos ou águas subterrâneas, "apenas 31 alcançaram acordos de cooperação que cobrem pelo menos 90% da superfície das suas bacias transfronteiriças", observa o relatório.
- Água e tecnologia -
A diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, destaca a importância de aumentar os investimentos privados, uma vez que "o acesso universal à água potável, ao saneamento e à higiene em 140 países de baixa e média renda exigiria um investimento de cerca de 114 bilhões de dólares (567,7 bilhões de reais) anuais até 2030".
O relatório aponta ainda um "atraso" tecnológico na formação, assim como uma "falta de competências jurídicas, políticas e institucionais" para evitar o desperdício e a poluição e permitir a resolução de conflitos por meio da negociação.
A ONU alerta também para o surgimento de novas tecnologias concebidas sem considerar o seu impacto na água, mesmo quando visam reduzir as emissões de gases de efeito estufa, como os biocombustíveis, as baterias de lítio e os sistemas de captura e armazenamento de carbono.
Estes últimos "podem aumentar o consumo de água de uma central eléctrica em 90%", observa o relatório.
Sem esquecer as tecnologias de informação que "consomem cada vez mais água" porque precisam arrefecer os seus servidores, sobretudo com o desenvolvimento da inteligência artificial.
"Alguns avanços na eficiência da irrigação podem ter enormes impactos a nível global, já que a agricultura usa 70% da água doce extraída", diz Connor. O mesmo vale para a indústria, que representa 20%, acrescenta.
S.Leonhard--VB