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Carney decide enfrentar Trump, apesar dos perigos
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, decidiu enfrentar o presidente americano, Donald Trump, ao rejeitar um acordo comercial considerado "injusto", uma postura que vai ao encontro da opinião pública, cansada do assédio de Washington, mas que pode se revelar arriscada do ponto de vista econômico.
Após semanas de negociações com a Casa Branca para finalizar um acordo comercial e evitar tarifas punitivas adicionais, Carney deu por encerrados os diálogos pouco antes de expirar o ultimato do chefe da Casa Branca.
Como resultado, entraram em vigor neste sábado (22) as tarifas americanas de 50% sobre importações canadenses em um valor total de 20 bilhões de dólares (R$ 103 bilhões).
No mesmo sábado, Carney anunciou medidas de retaliação pelo mesmo montante. "Não permitiremos que nenhum país decida nosso futuro", insistiu na sexta-feira.
"Nosso governo compreendeu antes de muitos outros" que os Estados Unidos "utilizariam a integração econômica como arma" e que, "às vezes", suas promessas "estavam escritas com tinta invisível", acrescentou perante jornalistas neste sábado.
Em janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, o discurso do primeiro-ministro canadense foi interpretado como um chamado a não aceitar como inevitável a ruptura da ordem mundial provocada pelo governo Trump.
"As potências médias precisam agir juntas, porque se não participarmos das negociações, seremos o prato principal", afirmou.
– "Linha-dura" -
Desde a noite de sexta-feira, Carney, ex-presidente do Banco Central, tem recebido o apoio unânime da liderança política canadense.
O líder da oposição conservadora, Pierre Poilievre, conclamou os canadenses a "permanecerem unidos" para defender o Canadá desses "ataques injustos".
Segundo o Globe and Mail, "Mark Carney finalmente seguiu o sinal da opinião pública canadense em vez de cair na armadilha do presidente americano".
Uma pesquisa publicada no início desta semana revelou que 56% dos canadenses são a favor de uma "linha-dura" e do fim das "concessões" a Washington.
Desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, o Canadá se encontra na linha de frente da guerra comercial iniciada pelo presidente americano, que manifestou reiteradas vezes sua intenção de transformar seu vizinho no "51º estado" da União.
Essa retórica gerou forte repúdio no Canadá, onde a maioria das províncias, que detêm o monopólio da venda de bebidas alcoólicas, retirou vinhos e destilados americanos de suas prateleiras.
Nesse contexto, o primeiro-ministro recebeu nos últimos meses apelos para utilizar a energia como instrumento de pressão contra os Estados Unidos, algo a que ele se recusou até agora.
"Não acredito que eles queiram que paremos de lhes enviar essa energia", comentou de forma enigmática no sábado, ressaltando que o petróleo canadense, extraído das areias betuminosas de Alberta, representa quase 60% das importações de petróleo bruto dos Estados Unidos.
– Custo econômico real –
Os Estados Unidos continuam sendo, de longe, o principal parceiro comercial do Canadá, e as vendas para o vizinho representam atualmente cerca de 70% do total das exportações do país.
As tarifas americanas já tiveram impacto significativo em setores estratégicos como o aço e o transporte. Enfrentar Trump não está livre de riscos para Carney, que confia em que sua estratégia de diversificar as parcerias comerciais permitirá ao Canadá reduzir sua dependência do vizinho.
Embora as novas tarifas americanas afetem apenas 5% das exportações canadenses para os Estados Unidos, o custo econômico do aumento é real e será sentido especialmente em Quebec e Ontário, os motores econômicos do país, segundo analistas do banco RBC.
Para além desse impacto imediato, a imprevisibilidade da política do governo Trump em relação ao Canadá está afetando a confiança empresarial em todos os setores expostos ao comércio internacional, não apenas naqueles diretamente atingidos pelas tarifas, acrescentam.
Trevor Tombe, professor de economia na Universidade de Calgary, estima, em sua conta na rede social X, que essas tarifas americanas de 50% provocarão a perda de 90 mil empregos.
M.Betschart--VB