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Capitão indiano detido em Londres por transportar petróleo russo é 'bode expiatório', diz esposa
"Meu marido está servindo de bode expiatório", afirma, em entrevista exclusiva à AFP, a esposa do capitão indiano de um petroleiro, detido no Reino Unido sob a acusação de transportar petróleo russo alvo de sanções.
Ajay Pant, de 38 anos, foi indiciado em meados de junho por violar as sanções britânicas. Ele será julgado em dezembro e pode pegar até dez anos de prisão em um caso que pode abrir um precedente para os profissionais da Marinha mercante.
Sua esposa, Ritu Pant, de 36 anos, falou pela primeira vez desde a detenção do marido e disse à AFP que ele "está servindo de bode expiatório". "Ele simplesmente estava no lugar errado, na hora errada."
As Forças Armadas britânicas interceptaram seu navio, o Smyrtos, de bandeira camaronesa, em 14 de junho, no Canal da Mancha, na primeira operação desse tipo realizada pelo Reino Unido. Segundo o site MarineTraffic, a embarcação deixou o porto russo de Ust-Luga em 5 de junho e seguia para Port Said, no Egito.
O petroleiro é suspeito de pertencer à chamada "frota fantasma", utilizada pela Rússia para contornar as sanções ocidentais ao petróleo impostas em represália à invasão da Ucrânia em 2022.
Ajay Pant, natural de Ramnagar, uma pequena cidade no norte da Índia, está atualmente detido na prisão de Winchester, a sudoeste de Londres. Um tribunal da capital britânica negou seu pedido de liberdade sob fiança.
"Ele estava arrasado e não parava de chorar", conta sua esposa, contendo as lágrimas ao recordar a primeira ligação que tiveram após a detenção.
"Ele não entendia o que estava acontecendo... Só dizia: 'Estou na prisão, por favor, me tire daqui'", recorda.
Ao lado da nora, a mãe do capitão, Deepa, pede ao governo indiano que traga seu filho "de volta para casa". Nova Délhi afirmou que acompanha o caso de perto.
- Um caso complexo -
Em uma audiência, o advogado do capitão argumentou que seu cliente "apenas cumpriu as ordens" do proprietário do navio, argumento reiterado por sua esposa.
"A responsabilidade do comandante de qualquer navio é garantir que ele chegue em segurança ao seu destino", afirma.
A acusação, porém, sustenta que, na condição de capitão, ele tinha "conhecimento da carga" a bordo, cerca de 98 mil toneladas de petróleo.
Anwar Sadat, professor da Sociedade Indiana de Direito Internacional, destaca que o caso apresenta dificuldades jurídicas "complexas".
O julgamento do capitão, previsto para começar em 15 de dezembro, pode abrir um precedente justamente em um momento em que países europeus endurecem as medidas contra a frota fantasma russa.
França, Bélgica, Finlândia e outros países europeus interceptaram recentemente navios suspeitos de contornar as sanções ocidentais contra o petróleo russo, uma fonte fundamental de financiamento para Moscou.
Nesse contexto, Ajay Pant se tornou o primeiro capitão de um petroleiro processado na Europa por supostamente violar essas medidas.
O caso "poderia criar um precedente para processar não apenas aqueles que operam a frota fantasma, mas também os marinheiros que trabalham a bordo", explica David Hammond, da ONG Human Rights at Sea International, em uma análise para a plataforma de informações marítimas Lloyd’s List Intelligence.
- "Entre a cruz e a espada" -
Desde a detenção, muitos marinheiros temem ficar "entre a cruz e a espada" em uma disputa entre potências rivais, comenta Steve Yandell, responsável pela seção de marítimos da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF).
"Muitas vezes, eles não sabem que seu navio transporta petróleo sujeito a sanções e correm o risco de se ver envolvidos em um conflito geopolítico", afirma.
Sanket Joshi, um capitão indiano de 40 anos que passou mais de 20 anos no mar, considera preocupante que um comandante seja processado por "algo que pertence ao âmbito comercial", e não propriamente a questões de segurança.
B.Wyler--VB