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Crise no Mar Vermelho coloca em risco processo de paz no Iêmen
Os ataques huthis no Mar Vermelho e no Golfo de Áden, respondidos com bombardeios dos Estados Unidos e do Reino Unido contra este grupo rebelde, paralisam os esforços para colocar fim à guerra do Iêmen e ameaçam sua população.
O país mais pobre da Península Arábica enfrenta desde 2014 uma guerra civil entre o governo, apoiado desde 2015 por uma coligação militar liderada pela Arábia Saudita, e os rebeldes huthis pró-Irã, que controlam partes inteiras do país e a sua capital Sanaa.
Segundo a ONU, o conflito deixou direta ou indiretamente centenas de milhares de mortos e causou uma das piores crises humanitárias do mundo.
O Iêmen possui uma das "taxas de desnutrição mais elevadas já registradas", com "17,6 milhões de pessoas enfrentando insegurança alimentar aguda em 2024".
Uma trégua negociada pela ONU em abril de 2022 apresentou certo alívio, mas os analistas alertam que as hostilidades decorrentes do conflito em Gaza podem inviabilizar os esforços de paz.
Em "apoio" aos palestinos, nos últimos meses os huthis lançaram dezenas de ataques contra navios que consideram vinculados a Israel.
Em resposta a estas ações com consequências significativas para o transporte marítimo global, os Estados Unidos e o Reino Unido realizaram numerosos bombardeios contra as posições dos rebeldes iemenitas.
- Porta da guerra é reaberta -
As complexas negociações de paz no país avançaram até dezembro, quando a ONU anunciou que os insurgentes haviam concordado "a retomada de um processo político inclusivo".
Entretanto, com a crise no Mar Vermelho, "o plano de paz já não está em discussão", estima Majid al Madhaji, do Centro de Estudos Estratégicos de Sanaa.
Segundo ele, o governo iemenita, apoiado por Riade, buscaria agora "uma oportunidade para reverter o equilíbrio de poder" a seu favor.
"O caminho para a guerra estava fechado, mas agora a porta para o inferno está reaberta", alerta Farea al Muslimi, investigador do grupo Chatham House, para quem "a paz no Iêmen exige compromissos internacionais e regionais diferentes dos que existem atualmente".
Houssein al Ezzi, um alto funcionário huthi, ressaltou recentemente os "obstáculos" no caminho para a paz, que atribuiu aos Estados Unidos, ao Reino Unido e ao governo do Iêmen. Contudo, "Riade e Sanaã têm a coragem de superar estas dificuldades", acrescentou.
Em janeiro, um funcionário de alto escalão do governo iemenita pediu apoio internacional para uma operação terrestre com o objetivo de acompanhar os ataques aéreos de Washington e Londres contra os huthis.
- Arábia Saudita à margem -
Segundo o ex-embaixador americano no Iêmen Gerald Feierstein, os EUA estão sob "fortes pressões para não fazer nada que possa prejudicar as negociações de paz", disse ele.
O general reformado Joseph Votel, ex-chefe do Comando Central dos Estados Unidos, expressou a mesma linha, afirmando que é "mais importante (...) resolver a situação em Gaza e restaurar alguma forma de dissuasão com o Irã".
A Arábia Saudita, aliada dos EUA que tenta sair do conflito no Iêmen, não aderiu à coligação marítima internacional criada por Washington para proteger o transporte marítimo na região.
Riade também expressou "grande preocupação" após a primeira série de bombardeios dos EUA e do Reino Unido contra os huthis em 12 de janeiro e pediu "moderação".
Esta monarquia petrolífera "acompanhará de longe até onde Washington irá, mas não se envolverá em nenhuma batalha com os huthis, a menos que eles ataquem o seu território", estimou o pesquisador Farea al Muslimi.
Contudo, mesmo que a Arábia Saudita permaneça fora das tensões no Mar Vermelho, "a comunidade internacional está menos inclinada a apoiar um plano de paz no Iêmen por medo de recompensar os huthis pelos seus ataques" ao tráfego marítimo, disse Mohamed al Basha, do centro de pesquisa americano Novanti.
P.Staeheli--VB