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Protestos de agricultores na UE têm grande impacto sobre acordo com Mercosul
As demoradas negociações para fechar um acordo de livre-comércio entre União Europeia e Mercosul foram cobertas por uma espessa nuvem de incertezas, em meio a protestos dos agricultores na Europa e à ferrenha oposição da França.
Negociadores dos países do Mercosul e da UE participaram de reuniões no Brasil que provocaram otimismo sobre a possibilidade de um acordo. De repente, no entanto, a situação mudou e esfriou o entusiasmo.
"Atualmente, a análise da Comissão é que não estão reunidas as condições para concluir as negociações com o Mercosul, mas a UE segue empenhada em alcançar o acordo", afirmou nesta terça-feira (30) Eric Mamer, porta-voz da Comissão Europeia, braço Executivo da UE, formada por 27 países.
"A União Europeia continua em busca de seu objetivo de alcançar um acordo que respeite os objetivos da UE em termos de sustentabilidade e que respeite nossas sensibilidades, em particular no âmbito agrícola", acrescentou.
Mamer afirmou que o vice-presidente executivo da Comissão, Valdis Dombrovskis, segue disposto a viajar aos países do Mercosul quando houver acordo, "mas levando em consideração as últimas reuniões, este não é o caso".
Esta postura do Executivo europeu foi revelada após o presidente da França, Emmanuel Macron, antecipar que seu governo, pressionado por enormes protestos de agricultores, não apoiará a assinatura do acordo com o Mercosul, formado por potências exportadoras agrícolas.
Na segunda-feira, uma fonte da Presidência francesa chegou a afirmar que a UE havia dado instruções a seus negociadores para interromper as reuniões no Brasil.
No segundo semestre de 2023, quando ocupou a presidência semestral da UE, a Espanha se empenhou em fechar o acordo, mas os esforços não foram suficientes.
No entanto, as partes estavam confiantes que resolveriam favoravelmente os temas pendentes, e havia esperanças de uma assinatura em 15 de fevereiro, ou mesmo durante a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) prevista para 24 de fevereiro em Abu Dhabi.
- Pressão dos agricultores -
Na semana passada, os ministros de Relações Exteriores dos países do Mercosul assinaram uma declaração conjunta, na qual defendiam a assinatura do acordo com a UE o mais rápido possível.
O entusiasmo para encerrar a negociação que se arrasta há mais de 20 anos se chocou, porém, com a maciça mobilização dos agricultores europeus.
Os produtores agrícolas exibem uma ampla lista de reivindicações que vão do custo para a transição "verde" do setor à concorrência desleal atribuída a produtos importados da Ucrânia e ao acordo com o Mercosul.
Para a eurodeputada socialista espanhola Mónica González, nascida na Argentina e profunda conhecedora do Mercosul, será impossível fechar o acordo na atual legislatura do Parlamento Europeu.
Na opinião de González, a UE é "quem mais tem a perder" com o fracasso do acordo, porque precisa dos produtos que os países do Mercosul oferecem.
"Eu acredito que da cooperação até o desenvolvimento há ferramentas para salvar" o que foi negociado até agora, disse à AFP.
Nesta terça-feira, Macron afirmou na Suécia que seu governo se opõe ao acordo, devido a "regras que não são homogêneas com as nossas".
Na França, os agricultores mantêm o bloqueio de estradas de acesso a Paris e também há protestos na Alemanha, Itália, Romênia, Polônia e Bélgica.
Na Espanha, três sindicatos agrícolas anunciaram hoje que se unem ao movimento, com mobilizações nas "próximas semanas".
O acordo UE-Mercosul criaria um mercado integrado com quase 800 milhões de habitantes.
L.Maurer--VB