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Barracas e comida congelada: como é viver Cannes com baixo orçamento
Quarto compartilhado, comida de supermercado e roupas de segunda mão: a cinéfila polonesa Marta Bozetka conseguiu pisar no tapete vermelho do Festival de Cannes sem se arruinar financeiramente.
"Com quartos a 300 euros (R$ 1.765) por noite, pensei: "Meu Deus, como vou sobreviver em Cannes?"", conta a roteirista de 27 anos. Em fóruns especializados, ela encontrou rapidamente um quarto compartilhado com duas lituanas, uma chinesa e uma filipina por 250 euros (R$ 1.471) pelas quatro noites.
"É incrível compartilhar com todas essas jovens tão diferentes a paixão pelo cinema", afirma.
Durante o festival na Riviera Francesa, no sul da França, elas cozinham juntas com um orçamento fixado em 15 euros (R$ 88) para as três refeições do dia. "A loja de congelados Picard é uma ótima opção", brinca Marta.
"Encontrei minha bolsa e meu vestido de segunda mão por 2 euros (R$ 12) na Polônia. A única coisa cara foram os sapatos", continua ela, vestida com um traje preto de cetim forrado com tule e sapatos Derby de salto.
Com um cartaz na mão, ela aguarda em frente ao Palácio dos Festivais na esperança de conseguir um convite para a sessão de "Natal Amargo", o novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar.
Como ela, inúmeros apaixonados pela Sétima Arte usam toda a criatividade possível para tentar conseguir esses cobiçados ingressos gratuitos. Canções improvisadas, fantasias de Charlie Chaplin ou sorrisos insistentes: cada um tem sua própria estratégia.
Alice Adonis, que viajou de Nice, no sul da França, tem uma técnica bem ensaiada para entrar em uma sessão ou em uma festa exclusiva. "Identifico jornalistas ou pessoas que trabalham para a Prefeitura, como policiais municipais, que costumam ter convites sobrando", relata.
- Camping lotado -
A hospedagem continua sendo o gasto mais importante para os cinéfilos com pouco dinheiro.
A cinco quilômetros do Palácio dos Festivais fica o único camping de Cannes que oferece bangalôs e espaços para barracas e trailers. O local está lotado durante toda a quinzena do festival, informa seu gerente.
Entre os clientes há agentes de segurança, técnicos e estudantes que vieram especialmente para o festival.
É o caso de Mélisse Laouiti, de 21 anos, que chegou de Rennes, no oeste da França, com um grupo de amigos. Juntos, eles conseguiram credenciamento por meio de um programa do centro cacional do cinema e da imagem Animada (CNC).
"Ficamos no camping porque é mais barato", explica a estudante, que gastou apenas 150 euros (R$ 882) por duas semanas.
O ponto de ônibus que permite chegar ao centro da cidade em cerca de vinte minutos fica logo na entrada do camping e, graças ao credenciamento, ela não precisa pagar passagem.
Ela calcula o orçamento para alimentação em "menos de 100 euros" para toda a quinzena. "Assistimos a muitos filmes, então quase não temos tempo para cozinhar", detalha.
- Reutilizar o smoking -
O vestido dela, comprado por 40 euros (R$ 235) em um site de roupas, completa um orçamento que ela estima entre 500 e 600 euros (entre R$ 2.941 e R$ 3.529), incluindo a passagem de trem. Sem gastos supérfluos, seu único "pequeno luxo" é o café, quando a sequência de sessões começa a cansá-la.
"Ir a Cannes gastando pouco é possível quando a pessoa é realmente apaixonada", embora "desembolsar 500 euros doa", considera.
Como verdadeira amante do cinema, ela não se interessa nem pelo glamour nem pelos paetês. Inclusive, lamenta ver influenciadores desfilando pelo tapete vermelho e "indo embora sem assistir ao filme".
Entre duas torradas matinais na varanda de seu motorhome, o montador de cinema berlinense Denis Lutz, de 42 anos, conta que reservou sua vaga seis meses antes. Ele pagou 800 euros (R$ 4.706) por uma semana, valor dividido entre ele e um amigo.
Este é seu sétimo Festival de Cannes, mas a primeira vez em que escolhe ficar em um camping, decisão motivada tanto pelo orçamento quanto pela vontade de "reencontrar a calma e a natureza".
O terreno, de cinco hectares e cercado por pinheiros, oferece um contraste surpreendente com o agito do palácio.
"Em Cannes, é preciso estabelecer prioridades. Se você vem pelos filmes, sem buscar glamour, então sobreviver aqui é totalmente possível", afirma.
Desde seu primeiro Cannes, Denis reutiliza o mesmo smoking, embora admita que agora ele esteja um pouco apertado.
J.Marty--VB