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Por que Noboa foi surpreendentemente derrotado em referendo no Equador?
Daniel Noboa queria reinstalar bases militares estrangeiras no Equador e redigir uma nova Constituição. Mas os equatorianos barraram de forma surpreendente a ambição de seu presidente de endurecer sua guerra contra o crime e reforçar a aliança com os Estados Unidos.
Embora as pesquisas projetassem uma vitória folgada de Noboa, reeleito em abril e próximo de Donald Trump, triunfou no referendo de domingo o desencanto e a rejeição a suas condutas consideradas autoritárias, segundo analistas e cidadãos.
O "não" se impôs nas quatro perguntas apresentadas na consulta, com percentuais que foram de 61% para a redação de uma nova Constituição a 53% para a redução à metade do número de congressistas.
As bases militares estrangeiras, proibidas desde 2008, foram rejeitadas por 61% dos eleitores e o fim do financiamento estatal aos partidos políticos por 58%.
A seguir, três pontos-chave da derrota eleitoral de Noboa:
- Decepção por insegurança -
Em 2024, Noboa colocou militares nas ruas e prisões, e aumentou os impostos para financiar sua guerra contra as gangues de narcotraficantes.
Agora pretendia fortalecer sua ofensiva com o apoio de Washington, que lançou uma campanha de bombardeios contra lanchas que acusa de transportarem drogas no Pacífico e no Caribe.
"Importa aos Estados Unidos se nossos filhos são roubados nas ruas? Eles não se importam", indicou à AFP Daniela Córdova, trabalhadora universitária que festejou o sucesso do "não".
A segurança do Equador "não depende de uma Constituição nem de bases" militares, acrescentou esta mulher de 44 anos.
Os equatorianos voltaram às urnas com a taxa de homicídios próxima de um novo recorde. O país fechará o ano com 52 assassinatos para cada 100 mil habitantes, segundo o Observatório do Crime Organizado.
"Não houve um único resultado. Na verdade, está piorando" a insegurança, indicou Andrés Delgado, um estudante universitário de 23 anos desiludido de Noboa.
O presidente chegou a se exibir a bordo de um tanque militar e com jaqueta de couro liderando operações enquanto soldados com fuzis rodeavam presos seminus e de joelhos.
"Não se pode militarizar sem ter programas de prevenção da criminalidade precoce ou até mesmo programas para fortalecer certas instituições" como a que investiga a lavagem de dinheiro, assegurou a especialista em segurança Michelle Maffei.
A derrota eleitoral "é um castigo" à "especulação, à pirotecnia, a uma comunicação grandiloquente que está absolutamente divorciada da realidade", comentou o cientista político Santiago Cahuasquí, da Universidade Hemisférios.
"A realidade concreta dos equatorianos é que vivem com medo", afirmou.
- 'Ímpeto autoritário' -
Carolina Jaramillo, porta-voz presidencial, assinalou nesta segunda-feira ao site La Posta que venceu no referendo "o medo profundo à mudança".
Noboa propôs redigir uma nova Carta Magna diante do freio imposto pela Corte Constitucional às leis que incluíam temas como a castração química de estupradores e a vigilância de cidadãos sem ordem judicial.
"Meu voto pelo 'não' foi um repúdio real ao governo por ser ditatorial, quer impor tudo a seu gosto", disse Ximena Martínez, uma vendedora de 29 anos do porto de Manta (sudoeste), onde Noboa pretendia reinstalar uma base militar americana.
E questionou: "Para que trazer de volta os militares dos Estados Unidos para Manta depois dos atropelos que eles cometeram aqui?"
Organizações de direitos humanos denunciam que a antiga base americana em Manta usava aviões para detectar barcos com drogas ou imigrantes para depois danificá-los ou afundá-los.
As pessoas "estão castigando esse ímpeto autoritário de Noboa", afirmou Cahuasquí.
O que aconteceu no domingo foi um "voto de avaliação" de sua gestão que começou em 2023 em meio a altos índices de violência, acrescentou.
- 'Repressão' a indígenas -
Os recentes protestos indígenas contra a eliminação do subsídio ao diesel também pesaram no resultado.
Em uma demonstração de força, Noboa enviou milhares de militares à província de Imbabura (norte) para conter indígenas que bloqueavam rodovias.
A consequência foi "justamente o enfraquecimento do governo nas províncias onde tinha uma base eleitoral que lhe permitiu o triunfo" na reeleição deste ano, opinou Cahuasquí.
Em Imbabura, os resultados "são demolidores" para o presidente, acrescentou. Até 70% do eleitorado votou pelo "não".
Norma Navarro, uma aposentada de Quito de 73 anos que batia em uma panela nas comemorações pelo revés de Noboa, afirmou que decidiu votar contra após "a brutal repressão ao povo indígena" durante as manifestações, que deixaram pelo menos dois mortos.
"Isso foi o que mais me machucou", disse.
B.Wyler--VB