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Noboa sofre derrota com rejeição de bases militares estrangeiras e nova Constituição no Equador
O presidente equatoriano Daniel Noboa sofreu um duro revés eleitoral no domingo (16): a maioria dos eleitores rejeitou seu referendo para instalar bases militares estrangeiras e redigir uma nova Constituição.
Segundo a apuração parcial de 81% dos votos, o 'Não' venceu de forma surpreendente, depois que as pesquisas indicaram que as iniciativas do mandatário obteriam a maioria dos apoios com ampla margem.
O presidente milionário de 37 anos cancelou um encontro previsto com a imprensa perto de seu reduto em Olón e publicou uma curta mensagem na rede social X: "Respeitamos a vontade do povo equatoriano. Nosso compromisso não muda".
Quase 14 milhões de equatorianos foram convocados a votar de maneira obrigatória em meio à preocupação pela violência crescente e às tensões pelos bombardeios dos Estados Unidos contra embarcações que supostamente traficam drogas no Caribe e no Pacífico.
Além da oposição ao retorno das bases militares estrangeiras, que estão proibidas desde 2008 (com 61% dos votos) e à redação de uma nova Carta Magna por uma Constituinte (62%), os equatorianos rejeitaram o fim do financiamento estatal aos partidos políticos (58%) e a redução do número de congressistas (53%).
"Há uma tendência marcada nas quatro perguntas", afirmou Diana Atamaint, presidente do Conselho Nacional Eleitoral.
O presidente convocou o referendo depois que a Justiça bloqueou várias de suas iniciativas por considerá-las contrárias a direitos fundamentais, como a castração química para estupradores ou a vigilância sem ordem judicial.
Nas ruas de Quito, dezenas de pessoas celebraram os resultados com buzinas e gritos de "fora Noboa, fora". "É o triunfo do povo equatoriano sobre a ditadura", disse à AFP Ricardo Moreno, um aposentado de 70 anos.
- Campanha "nefasta" -
O Equador enfrenta uma crise de segurança inédita, com a maior taxa de homicídios da América Latina: 39 para cada 100.000 habitantes em 2024, segundo o site Insight Crime.
No poder desde novembro de 2023, Noboa mobilizou soldados nas ruas e nas prisões, ordenou grandes operações nos redutos do tráfico de drogas e declarou estados de exceção com frequência, medida criticada por organizações de defesa dos direitos humanos.
Muito próximo à Casa Branca e com um discurso de linha-dura contra o crime, Noboa buscava mais poder para enfrentar as diversas gangues que semeiam terror no país, que há uma década era considerado um local tranquilo.
"A campanha do presidente foi nefasta (...) tudo foi mentira", disse Oscar Varela, um engenheiro de 28 anos em Quito.
Poucos minutos após o início da votação, Noboa anunciou a prisão na Espanha do chefe da poderosa gangue criminosa Los Lobos, Wilmer Chavarría, conhecido como Pipo.
A gangue Los Lobos controla operações de garimpo ilegal e está associada ao cartel mexicano Jalisco Nova Geração, segundo o presidente.
"Hoje capturamos [...] o criminoso mais procurado da região [...]. O criminoso que fingiu sua morte, mudou de identidade e se escondeu na Europa", escreveu o mandatário no X.
Noboa, nascido nos Estados Unidos, aposta na cooperação internacional para combater o narcotráfico e se tornou um dos maiores aliados do governo de Donald Trump na região.
Desde que chegou ao poder, o líder equatoriano tem ampliado os laços com Washington mediante acordos migratórios, tarifários e de segurança.
Mas os eleitores rejeitaram a iniciativa dos Estados Unidos de retornar à base militar de Manta, onde operaram voos antidrogas entre 1999 e 2009.
Enquanto México, Brasil, Colômbia e Venezuela reprovam os bombardeios no Caribe e no Pacífico que deixaram pelo menos 83 mortos, Noboa defende a ofensiva como estratégia contra o tráfico de cocaína que sai sobretudo de seus portos.
- Nova Constituição -
Organizações de defesa dos direitos humanos denunciam abusos das forças de segurança e o aumento dos desaparecimentos de pessoas sob custódia de policiais e militares.
Ao volante de seu Porsche, sobre um tanque do exército ou dançando com seguidores nas redes sociais, Noboa promove sua imagem de governante jovem e implacável contra o crime.
Na semana passada, divulgou fotos de centenas de presos com uniformes laranja, cabeças raspadas, alguns de joelhos e com as mãos na nuca, enquanto eram levados para sua nova megaprisão, uma atitude que lembra as protagonizadas por seu homólogo salvadorenho Nayib Bukele.
Noboa planejava mudar a Carta Magna por considerá-la demasiadamente "garantista" com os criminosos e havia entrado em conflito com a Corte Constitucional ao organizar protestos contra seus magistrados.
Este é o pior embate eleitoral do presidente desde que, em 2024, conseguiu a aprovação via referendo da extradição de equatorianos e o aumento de penas para o crime organizado.
F.Mueller--VB