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Eleição de juízes abre um período de incertezas no México
A Justiça do México entrou em um período de incertezas após as eleições judiciais sem precedentes, marcadas por abstenção e preocupações com a independência judicial e a relação econômica com os Estados Unidos.
Com uma participação entre 12% e 13%, os mexicanos elegeram 2.680 autoridades no domingo, de ministros da Suprema Corte até juízes de instâncias inferiores, um caso único no mundo.
Entre os milhares de candidatos estavam ex-advogados da máfia, como Silvia Delgado, que em 2016 assessorou o narcotraficante Joaquín "Chapo" Guzmán, condenado à prisão perpétua nos Estados Unidos.
As candidaturas alimentaram suspeitas sobre uma possível interferência de políticos e criminosos no Judiciário.
As preocupações se estendem à relação vital com os Estados Unidos antes da revisão do acordo comercial T-MEC, prevista para este ano, segundo a empresa britânica Capital Economics.
A eleição "poderia complicar" as negociações, alertou a consultoria, em meio à pressão tarifária do presidente americano, Donald Trump, sobre o México e o Canadá.
Em agosto do ano passado, quando ainda era senador, o atual secretário de Estado americano, Marco Rubio, assinou uma carta na qual o Comitê de Relações Exteriores alertava que a reforma que levou às eleições colocaria em risco "interesses econômicos e de segurança" bilaterais.
- Legal, mas ilegítima -
O Instituto Nacional Eleitoral deve anunciar os nove membros da Suprema Corte nesta segunda-feira (2) e os outros eleitos nos próximos dias.
O principal tribunal do país foi o pomo da discórdia que levou o ex-presidente de esquerda Andrés Manuel López Obrador (2018-2024) a pressionar pela eleição de juízes por meio de uma emenda constitucional.
A Suprema Corte bloqueou vários projetos de López Obrador, o que fez com que ele e sua sucessora, Claudia Sheinbaum, acusassem ministros e outros juízes de defender interesses corruptos, de impunidade superior a 90% e de nepotismo.
"Esta não é uma reforma que visa aprimorar o sistema de justiça, mas sim capturá-lo", disse à AFP Juan Jesús Garza, especialista da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam).
As eleições foram marcadas pela confusão devido à grande quantidade de cédulas e às extensas listas de candidatos.
Alguns eleitores conheceram os candidatos pelo TikTok e decidiram apoiá-los inclusive após contatá-los por telefone ou simplesmente por "intuição", segundo depoimentos ouvidos pela AFP na Cidade do México e em Guadalajara (oeste).
O pouco conhecimento dos perfis dos candidatos e as dúvidas sobre sua idoneidade também geram incerteza. Além disso, algumas decisões podem ser adiadas, já que os novos juízes só tomarão posse em setembro.
"A Justiça não vai mudar da noite para o dia (...). Pelo contrário, vai atrasar ainda mais a atribuição dos cargos", alerta Garza.
A esquerda já controla o Legislativo e a maioria dos governos estaduais na segunda maior economia da América Latina.
Três ministros da Suprema Corte atual, aliados ao governo, buscavam permanecer no cargo.
As eleições não exigiam um percentual mínimo de participação para serem válidas, mas a alta taxa de abstenção enfraquece o argumento do governo de que os cidadãos queriam eleger seus juízes, diz Garza.
"Mesmo que a eleição seja legal, política e eticamente válida, será muito difícil" defendê-la, alerta Garza.
C.Koch--VB