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Revista francesa Charlie Hebdo prepara edição especial 10 anos depois de ataque jihadista
A revista satírica francesa Charlie Hebdo está preparando uma edição especial para a próxima semana com caricaturas sobre Deus, dez anos depois do ataque jihadista em sua sede que gerou comoção mundial.
Ao todo, doze pessoas morreram neste ataque sem precedentes, que só terminou dois dias depois, com uma sangrenta tomada de reféns em um supermercado de produtos kosher por outro jihadista, simpatizante dos dois irmãos que realizaram o ataque ao Charlie Hebdo.
Desde então, a revista continuou sendo publicada, com sua equipe de redação de cartunistas reduzida e jornalistas que vivem sob fortes medidas de segurança.
Quando os irmãos Said e Cherif Kouachi deixaram a sede da Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2015, depois de atirar indiscriminadamente, gritaram "Nós matamos o Charlie Hebdo!".
"Eles não mataram o Charlie Hebdo", respondeu o editor-chefe da revista, Gerard Biard, em uma entrevista recente à AFP.
O semanário registrou um extraordinário aumento de vendas após o ataque. Foram oito milhões de exemplares vendidos logo após a tragédia e agora conta com cerca de 30.000 assinantes e 20.000 vendas em bancas.
Fundado em 1970 por um grupo de humoristas anarquistas, o Charlie Hebdo fez outros inimigos, como intelectuais e políticos de esquerda, que censuram seus cartunistas por persistirem em seu tom satírico, o que consideram islamofóbico.
Há um ano, a revista publicou charges zombando do líder supremo iraniano Ali Khamenei e, dias depois, o seu site comercial foi hackeado.
- Concurso de caricaturas -
Para marcar o 10 anos dos ataques, o semanário publicará online no domingo o resultado de um concurso de caricaturas de Deus lançado em novembro. Uma edição especial da revista estará à venda na terça-feira (7).
O objetivo é proclamar o direito à liberdade de expressão "de todos aqueles que estão fartos de viver em uma sociedade governada por Deus e pela religião", segundo seus autores.
O presidente Emmanuel Macron e a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, participarão de eventos de comemoração em vários locais onde ocorreram os ataques jihadistas de janeiro de 2015.
- "Irresponsáveis" -
"As pessoas têm todo o direito de não gostar dos desenhos do Charlie Hebdo, de seu humor, suas provocações, das ideias de seus jornalistas. Mas 'ser Charlie' há dez anos significava rejeitar que homens e mulheres morressem por expressarem suas ideias", declarou o ex-diretor de segurança da revista, Éric Delbecque, em uma entrevista publicada pelo jornal Le Figaro nesta sexta-feira (3).
Em seu livro recém-publicado "Les irresponsables" (Os irresponsáveis, em tradução livre), Delbecque acusa o que considera ser a "covardia" do Estado e dos líderes políticos diante da ameaça islamista.
Os ataques ao Charlie Hebdo marcaram o início de uma onda de ataques na França. Em 13 de novembro de 2015, ocorreram ataques no Bataclan e em bares e restaurantes de Paris, com um total de 130 mortos.
Em 23 de dezembro, um tribunal condenou oito pessoas ligadas à decapitação do professor de ensino médio Samuel Paty em 2020. O educador havia mostrado charges de Maomé do Charlie Hebdo em sala de aula, desencadeando uma "campanha de ódio" que levou ao seu assassinato, recordou o tribunal.
Os ataques das organizações militares ou conservadoras, que processaram repetidamente a revista na década de 1970 por seu tom irreverente, foram substituídos por ataques legais de associações de comunidades minoritárias, recorda o historiador Christian Delporte em uma entrevista publicada nesta sexta-feira no jornal Le Monde.
"Hoje é a sociedade, em particular as associações religiosas, mas não só, que exercem uma pressão mais ou menos organizada para censurar as liberdades", explica.
G.Frei--VB