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Viagem a Trujillo, o pico da extorsão no Peru
Nas sombras, o coronel Victor Revoredo, de pistola em punho, coordena o destacamento policial em frente ao seu alvo: um barraco onde ele acredita que “Cortadedos”, o extorsionário mais procurado de Trujillo, no norte do Peru, está preso.
Escondidos no telhado da casa do outro lado da rua, três homens uniformizados observam a cena. “Aqui vivem os 'Cortadedos'”, sussurra Revoredo, chefe de uma unidade especial que combate a extorsão nessa cidade de pouco mais de um milhão de habitantes.
Foi em Trujillo, em 2006, que as gangues iniciaram a chantagem violenta, começando com a cobrança de uma “cota” para transportar trabalhadores, diz o ex-ministro da segurança Ricardo Valdés.
Hoje, “a extorsão se generalizou e se tornou a principal fonte de renda das gangues criminosas”, diz Valdés, que também é investigador.
Suas vítimas não são mais apenas os ricos ou as grandes empresas, mas também o mercado de bens e serviços nas periferias urbanas, onde reina a informalidade - que no Peru como um todo é de cerca de 70% - e onde a presença do Estado é fraca.
Lojas, mototaxistas e escolas... ninguém escapa dos tentáculos da extorsão.
Tudo começa com uma mensagem no celular da vítima: “Se você não quiser que o sangue escorra, seremos práticos e você colaborará com 20.000 soles” (pouco mais de 5.000 dólares ou 28 mil reais), diz uma das mensagens compartilhadas pelo pai de um empresário assassinado em Trujillo.
As gangues dão as coordenadas para o depósito. Se isso não for feito, eles dinamitam ou atiram nas fachadas das casas ou estabelecimentos, de acordo com vários testemunhos coletados pela AFP.
É uma “pandemia criminosa”, diz o Coronel Revoredo, que desde abril está encarregado da estratégia contra organizações como Los Pulpos e La Jauría, as principais gangues de extorsão em Trujillo, a terceira maior cidade do Peru.
Os extorsionários colocaram um preço em sua cabeça: 40.000 dólares (227 mil reais), disse ele à AFP. As autoridades, por sua vez, estão oferecendo uma recompensa de 132.000 dólares (751 mil reais) por Jhonsson Cruz Torres, 28 anos, o líder da Los Pulpos.
Jean Piero García é um dos membros da Los Pulpos. A polícia intensificou sua caçada após o arrepiante caso do filho de um empresário que foi mantido em cativeiro por seis dias e teve seis dedos mutilados para pressionar seu pai a pagar três milhões de dólares (17 milhões de reais).
O coronel Revoredo o declarou como um de seus principais alvos. Quando entraram na casa, no perigoso bairro de El Porvenir, “Cortadedos” já havia fugido.Ele foi finalmente capturado na última semana de setembro.
Los Pulpos e La Jauría impõem sua lei e sua marca em Trujillo.
Nas fachadas das casas e nos veículos que extorquem, eles colam adesivos: a figura de um polvo ou de um puma amarelo. “A vida é curta, a morte é infinita”, diz o adesivo da Los Pulpos.
Embora a extorsão percorra a América Latina de norte a sul, no Peru ela se infiltrou em sua capital de dez milhões de habitantes.
Fartos da extorsão, várias empresas paralisaram os serviços de transporte público em Lima duas vezes no último mês, e a Aliança Nacional dos Trabalhadores em Transportes convocou uma “greve” nacional na quarta-feira.
O governo de Dina Boluarte, que está sendo punido nas pesquisas por sua gestão da segurança, enviou os militares para reforçar a luta da polícia contra a extorsão nos distritos que representam pouco mais de 60% dos 10 milhões de habitantes de Lima.
Em 2023, as autoridades receberam 23.000 denúncias de extorsão, um aumento de 509% em relação a 2021. Este ano, até setembro, a polícia registrou 14.220 denúncias.
H.Weber--VB