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Longa ausência de Dominique Pelicot ameaça seu julgamento por estupro na França
"E se o senhor [Dominique] Pelicot não estiver aqui na segunda-feira?".
Doente há dias, a prolongada ausência do principal acusado de drogar sua esposa para que ela fosse estuprada por dezenas de desconhecidos ameaça o andamento deste midiático julgamento na França.
O tribunal de Avignon, no sul da França, havia previsto interrogá-lo na última terça-feira, mas o aposentado de 71 anos se ausentou das audiências durante toda esta semana e pode comparecer somente na segunda-feira, explicou nesta quinta (12) o presidente do tribunal, Roger Arata.
Um médico que o examinou "confirma a necessidade de um atestado nesta quinta e na sexta-feira, a implementação de um tratamento adequado, com possível hospitalização e uma possível data de alta na segunda-feira", indicou Arata.
Mas e se Dominique continuar ausente na segunda-feira?, perguntou sua advogada, Béatrice Zavarro, que, assim como as partes, defende a suspensão do julgamento até que ele se recupere. "Seria uma catástrofe", respondeu o presidente do tribunal nesta manhã.
Embora tenha inicialmente falado em adiar por uma semana o esperado interrogatório do principal réu em Avignon, para onde se deslocaram meios de comunicação de todo o mundo, o magistrado anunciou horas depois que está considerando até mesmo adiar para uma nova data se Dominique "permanecer indisponível".
Se for adiado para uma nova data, "teremos que organizar tudo novamente: agenda, a disponibilidade da sala, do tribunal", assegurou Zavarro, estimando que alguns dos 18 acusados em prisão preventiva poderiam pedir liberdade provisória.
O julgamento por enquanto está suspenso até segunda-feira. Se Pelicot, que estaria com uma infecção, comparecer, então os depoimentos de seus dois filhos, David e Florian, de sua ex-esposa e principal vítima, Gisèle Pelicot, de seu genro Pierre e de seu irmão ocorreriam nesta data.
O primeiro interrogatório de Dominique Pelicot começaria na terça-feira. O principal réu se manifestou apenas no início do julgamento para dizer que reconhecia os fatos e confirmar que seu atual endereço é a prisão.
- "Cultura do estupro" -
Pelicot é acusado de drogar sua esposa administrando medicamentos escondidos para que ela fosse estuprada por dezenas de desconhecidos entre 2011 e 2020. Junto com ele, outros 50 homens, com idades entre 26 e 74 anos, podem ser condenados a penas de até 20 anos de prisão.
Este julgamento tornou-se um símbolo do uso de drogas para cometer agressões sexuais (submissão química) e também um exemplo, para os movimentos feministas, para reabrir o debate sobre a questão do consentimento.
"Precisamos mudar a lei e a questão do consentimento deve estar explicitamente inscrita ou definida no Código Penal", afirmou nesta quinta-feira a ministra francesa da Igualdade em exercício, Aurore Bergé, à rádio RTL.
Referindo-se ao caso de Gisèle Pelicot, Bergé estimou que a mulher, que até 2020 desconhecia os fatos, não sofreu meros "atos sexuais", mas sim "estupros, atos de tortura, atos de barbárie".
A principal vítima tornou-se um símbolo da luta contra as agressões sexuais. Seu rosto, junto ao lema "A vergonha muda de lado", foi usado para convocar uma manifestação "contra a cultura do estupro” na sexta-feira em Avignon.
À espera do interrogatório de Pelicot, os magistrados continuaram esta semana com o exame do primeiro grupo de corréus: Jean-Pierre M., de 63 anos, Jacques C. (72), Lionel R. (44) e Cyrille D. (54).
O primeiro deles, considerado o discípulo de Pelicot, é o único que não é acusado de estuprar Gisèle, mas sim de estuprar, junto com o principal réu, sua própria esposa durante cinco anos, administrando-lhe também ansiolíticos para que dormisse.
P.Keller--VB