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Museu nas Filipinas resgata história da mortal e lucrativa rota dos galeões espanhóis
Uma réplica em tamanho real de um galeão espanhol é erguida em frente à baía de Manila, esta peça central de um museu transportará os visitantes ao século XVII, quando marinheiros filipinos recrutados à força impulsionaram a era da globalização.
Este arquipélago asiático foi, por mais de três séculos (1565-1898), uma colônia da Espanha que esteve conectada por uma prolífica rota transatlântica com o porto mexicano de Acapulco.
Por ali, além de bens e tesouros, imponentes embarcações transportaram um profundo legado cultural, linguístico e religioso, ainda que em troca de um elevado custo humano, segundo historiadores.
O Museu do Galeão, centrado no navio "Espíritu Santo", pretende contar 250 anos de história desta rota comercial, a partir da perspectiva dos filipinos que tiveram que construir e tripular estas enormes embarcações.
"Esta é uma terra com uma grande tradição marítima, mas muitas vezes sob condições desumanas e degradantes", explicou à AFP o diretor do centro, Manuel Quezon.
Construído com trabalho forçado em 1603, o "Espíritu Santo" foi um dos 181 navios que realizaram centenas de viagens de 1565 a 1815 entre Manila e o México, de onde as ilhas eram administradas.
As condições eram tão duras que, segundo especialistas, um em cada três tripulantes morria.
"Foi o primeiro comércio global, conectando três continentes", detalhou Francis Navarro, chefe de arquivos da Universidade Ateneo de Manila.
- Florestas e famílias devastadas -
Navegando para oeste pelo oceano Pacífico durante três meses, os galeões transportavam moedas de prata das colônias americanas da Espanha até as Filipinas. Lá eram trocadas por artigos de luxo, como seda, porcelana e jade da China, incluindo o famoso xale de Manila, peça que simboliza a cultura espanhola.
A viagem de volta podia durar até um ano, com a carga atravessando o México em mulas antes de seguir para a Espanha.
Além da prata, os galeões levavam ideias, doenças, alimentos, religião, moda e muito mais. Mas este comércio colonial também devastou as florestas locais e desorganizou comunidades inteiras, visto que os homens aptos eram obrigados a oferecer 40 dias de serviço não remunerado para derrubar árvores e construir navios sob supervisão espanhola. Outros eram forçados a servir como marinheiros por até 10 anos.
Espremidos em embarcações sobrecarregadas, os tripulantes sobreviviam com uma dieta miserável que provocava doenças graves, e a taxa de mortalidade era "de cerca de 30% por viagem", afirmou Quezon.
Este comércio intercontinental só terminou com a luta do México por sua independência da Espanha.
Desde então, as rotas deixaram dezenas de navios naufragados, o que provocou disputas internacionais sobre a propriedade das relíquias e de suas riquezas.
- 'Preencher lacunas' -
Nas Filipinas, 14 anos após sua concepção e a partir de 1º de maio, os visitantes poderão percorrer o interior do "Espíritu Santo", imersos em uma gigantesca tela de LED que exibirá céus noturnos estrelados.
Artefatos das viagens decoram o interior, incluindo parte de uma tumba chinesa que serviu de contrapeso no porão do navio original.
Embora a representação do museu seja fiel em desenho e dimensões, ela foi construída com fibra de vidro e outros materiais sintéticos.
"Com este museu, preenchemos lacunas. Queremos que a criança que entrar aqui se dê conta de que muitas das coisas que ela dá como certas têm histórias absolutamente fascinantes por trás", comentou Quezon durante uma visita anterior à inauguração.
O financiamento do projeto, avaliado em cerca de US$ 16,5 milhões (R$ 82 milhões), veio das famílias mais ricas das Filipinas, depois que fracassaram as tentativas de obter apoio do governo e de um bilionário mexicano.
F.Wagner--VB