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Para além de gols e vitórias: histórias e imagens de quase um século de Copa do Mundo
Quase um século de história da Copa do Mundo gerou relatos, anedotas e imagens que vão muito além de gols, derrotas ou títulos.
A AFP relembra algumas dessas histórias horas antes do Mundial de 2026, na América do Norte, que começa nesta quinta-feira (11) no Estádio Azteca, na Cidade do México.
- Futebol e política -
Num momento em que o presidente da Fifa, Gianni Infantino, enfrenta críticas por sua proximidade com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e apesar de os estatutos da organização exigirem que os membros mantenham neutralidade política e evitem qualquer forma de interferência política, o futebol e a política frequentemente caminharam lado a lado.
Em uma época em que a sombra da guerra já pairava sobre a Europa, o ditador italiano Benito Mussolini utilizou a Copa do Mundo de 1938, na França, para promover seu regime. Os alemães fizeram o mesmo, com seus jogadores realizando a saudação nazista enquanto o hino era executado antes das partidas.
Muitos anos depois, outro líder italiano, Sandro Pertini, atraiu tanta atenção quanto os próprios jogadores da 'Nazionale' ao quebrar o protocolo e comemorar, assim como qualquer outro 'tifoso', cada um dos três gols marcados pela Itália contra a Alemanha Ocidental na final da Copa do Mundo de 1982, na Espanha.
Durante esse mesmo torneio, o xeique Fahad Al-Ahmed Al-Jaber Al-Sabah, irmão do emir do Kuwait, deixou o camarote e entrou no gramado para ordenar que seus jogadores abandonassem o campo em protesto contra um gol validado pelo árbitro durante a partida contra a França.
Inexplicavelmente, o árbitro acabou anulando o gol, uma decisão que, no fim das contas, não alterou o resultado da partida, já que os 'Bleus' venceram por 4 a 1.
- Drama no estádio -
Um estádio de futebol é um caldeirão de emoções, e houve momentos de grande drama ou pânico, como quando o jogador uruguaio Juan Hohberg sofreu uma parada cardíaca após marcar o gol de empate na semifinal de 1954 contra a Hungria.
Ele não só foi reanimado ali mesmo no campo (há imagens do momento na internet), como também jogou na prorrogação. Mas não houve um segundo milagre, e o Uruguai acabou sendo derrotado por 4 a 2 pelos favoritos.
Relatos da época contam que Pelé foi chutado tão violentamente pelos jogadores portugueses em 1966 que 'O Rei' não conseguiu terminar a partida no Goodison Park, em Liverpool. Ele teve que ser carregado para fora do campo pela comissão técnica da seleção, pois não conseguia apoiar o pé no chão.
No entanto, a entrada mais chocante já vista em uma Copa do Mundo foi cometida em 1982 pelo goleiro alemão Harald Schumacher. Ao tentar impedir um gol do francês Patrick Battiston, ele saiu rapidamente de sua área e colidiu com o jogador francês com tamanha violência que Battiston caiu inconsciente no gramado.
O alemão não apenas escapou de punição pela ação, como também não demonstrou qualquer preocupação com o adversário nem pediu desculpas. Ele chegou até a disputar a final, dias depois.
O 'Maracanazo' de 1950 foi, possivelmente, a maior demonstração de tristeza coletiva. Quando o jogador uruguaio Alcides Edgardo Ghiggia marcou o gol que garantiu o título para 'La Celeste', ele mergulhou uma nação inteira, o Brasil, numa depressão tão profunda que houve até casos de suicídio.
Sem chegar a tais extremos, a derrota do Brasil por 7 a 1 para a Alemanha nas semifinais de 2014, no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, deixou mais uma vez uma cicatriz profunda na torcida brasileira.
- Romance policial -
A Copa do Mundo também presenciou episódios dignos de um romance policial.
Em março de 1966, quatro meses antes do torneio realizado na Inglaterra, a Taça Jules Rimet (o troféu que homenageava o presidente da Fifa, idealizador da competição e que era entregue à equipe vencedora) foi roubada enquanto estava em exposição no Westminster Central Hall. Mais tarde, foi encontrada em um parque de Londres por um cachorro chamado Pickles.
Após passar para a posse do Brasil, na sequência da conquista do terceiro título em 1970, a taça foi roubada novamente em 1983, da sede da CBF, no Rio de Janeiro. Dessa vez, ela nunca mais reapareceu.
A Copa do Mundo de 1994, a primeira realizada nos Estados Unidos, foi marcada por dois episódios impactantes: primeiro, Diego Maradona, a maior estrela da época, testou positivo para uma substância proibida após a partida da fase de grupos contra a Nigéria (imagens dele deixando o campo de mãos dadas com uma enfermeira para o exame antidoping foram transmitidas mundialmente) e acabou sendo expulso do torneio.
Em um desdobramento ainda mais dramático, Andrés Escobar foi morto a tiros no dia 2 de julho, em um bar em Medellín, enquanto a Copa do Mundo ainda estava em andamento. Poucos dias antes, o zagueiro colombiano havia marcado um gol contra na partida contra os Estados Unidos, o que resultou na eliminação da Colômbia do torneio.
Embora a versão oficial tenha atribuído o incidente a uma discussão, muitos acreditavam que o assassinato fora cometido por traficantes de drogas que haviam perdido grandes quantias de dinheiro em apostas.
- Antes e depois -
Certos incidentes ocorridos durante partidas da Copa do Mundo levaram a mudanças nas regras do jogo.
O jogador argentino Antonio Rattín foi expulso durante as quartas de final da Copa do Mundo de 1966, contra o país-sede, numa época em que os cartões de punição ainda não existiam e as advertências eram feitas verbalmente.
No entanto, o argentino alegou não entender o que o árbitro, o alemão Rudolf Kreitlein, lhe dizia, recusando-se a deixar o campo... até ser retirado pela polícia dez minutos depois.
Para evitar problemas de comunicação desse tipo, a Fifa introduziu o sistema de cartões no torneio de 1970, no México. Porém, foi só quatro anos depois que ocorreu a primeira expulsão com o novo recurso em uma partida de Copa do Mundo, na Alemanha Ocidental: o chileno Carlos Caszely entrou para a história como o primeiro jogador a receber um cartão vermelho num Mundial.
A partida entre Alemanha Ocidental e Áustria na Copa do Mundo de 1982, na Espanha, é lembrada pelo pacto entre as duas equipes: uma vitória apertada dos alemães garantiria a classificação de ambos para a segunda fase, eliminando a Argélia, que já havia disputado seus jogos.
Um gol de Horst Hrubesch aos 10 minutos garantiu a vitória da Alemanha Ocidental por 1 a 0.
A torcida no estádio El Molinón, em Gijón, passou boa parte da partida gritando "Que se beijem, que se beijem!", em resposta à falta de espírito competitivo demonstrada pelas equipes.
Após esse Mundial de 1982, a Fifa decidiu que a última rodada da fase de grupos seria disputada no mesmo horário por chave.
- O futebol antes do VAR -
O futebol entrou em uma nova fase em 2016, quando a Fifa aprovou o uso do sistema de Árbitro Assistente de Vídeo (VAR), com o objetivo de acabar com controvérsias e decisões de arbitragem errôneas, ou que simplesmente não haviam sido bem revisadas.
Uma decisão de arbitragem definiu a final da Copa do Mundo de 1966 na Inglaterra: o árbitro soviético Tofik Bakhramov validou um gol de Geoffrey Hurst, da Inglaterra, durante a prorrogação, um chute em que a bola bateu no travessão e quicou na linha do gol, dando aos anfitriões uma vantagem de 3 a 2 (a partida terminou 4 a 2).
Mesmo hoje, com o auxílio de imagens de televisão, ninguém pode afirmar com certeza se a bola cruzou a linha.
O VAR também teria resolvido a situação complicada do árbitro que não viu a mão de Maradona contra a Inglaterra em 1986, a cotovelada de Mauro Tassotti em Luis Enrique durante a partida entre Itália e Espanha em 1994, que deixou o atual técnico do PSG com o nariz sangrando, ou a mordida de Luis Suárez em Giorgio Chiellini durante o jogo entre Uruguai e Itália em 2014.
O VAR ainda não existia em 2006, mas o quarto árbitro da final, o espanhol Luis Medina Cantalejo, alertou o árbitro argentino Horacio Elizondo de que Zinedine Zidane havia dado uma cabeçada em Marco Materazzi, após ver o incidente em um monitor à beira do campo. Isso levou à expulsão do francês, e os italianos acabaram conquistando o título após a disputa de pênaltis.
F.Fehr--VB